I simply love you.
terça-feira, 12 de abril de 2022
segunda-feira, 15 de junho de 2020
Vida Real
Quantos eventos em tão pouco tempo!
Em 2013, eu tinha uma mente sonhadora, um coração carente, e escrevia longos textos enquanto ouvia toda a playlist da Lana Del Rey. Esse tempo ficou para trás, eu consegui tirar meu cara dos sonhos das linhas escritas e trouxe para a realidade. Na verdade, eu queria, sim, desesperadamente, viver um romance.
A vida real não combina com o que a gente lê nos romances, com o que a gente imagina. A vida real sequer tem a playlist para cada momento, como os meus textos tinham. Ali, tudo se encaixava.
Na vida real, os dias viraram meses, e depois viraram anos, e no meio disso tudo eu conheci dor, conheci o contraste entre o normal e o anormal. Meus pequenos prazeres de antes, com as amigas, se tornaram um tormento em minha vida.
Depois de quatro anos, eu já não era nem dez por cento da pessoa de antes. Já sofria de ansiedade desde bem pequena, mas agora era diferente. Agora eu sentia falta de mim, pois já não me reconhecia mais.
A senhorita super treinada, viajada, culta, de repente se vê vazia, não consegue mais se prender à uma leitura, não viaja mais, não curte mais nem as playlist's que eram tão bem elaboradas para cada hora e sentimento.
Quando você se perde, o caminho de volta pode e, em geral, é, muito longo e tempestuoso. Um passeio com as amigas, uma conversa franca com a própria filha, um churrasco com a família... Tudo se torna difícil.
Dois anos depois do meu divórcio, eu consegui escrever um único texto, mas possuo cadernos e mais cadernos que usei para escrever durante toda aquela fase, só que o medo de voltar naqueles sentimentos me impede de abri-los. Gostaria, sim, de colocar tudo de forma a seguir uma linha do tempo - desde quando começou tudo bem, até quando eu era só um poço de lágrimas rezando para que tudo terminasse logo.
Quem tenta se matar no dia do próprio casamento?
Depois de tornar o dia mais feliz da minha vida em pesadelo, eu só queria dormir e não acordar nunca mais.
Quando vi meu cachorro ser espancado, me coloquei na frente dele e minhas mãos sangraram, porque tomei os socos que ele ia tomar.
Se ele se lembra? Não. Ou só diz que precisava "educar seu cachorro".
Os meus cães não eram acostumados com aquilo. Eu nunca fui tratada assim por nenhum homem que tenha feito parte em algum momento da minha vida.
Como tudo isso se desfaz?
Como você faz para esquecer disso e lembrar das outras coisas boas?
Eu tenho dito ultimamente que minha memória já não é a mesma por conta de todos os remédios que tomo para ficar em pé durante o dia, e conseguir dormir durante a noite.
É sério - eu estou perdendo minhas lembranças e quero recordá-las pois me trariam alegria.
Trabalhei por seis meses no ano de 2019 com uma médica veterinária que era um amor de pessoa, e ela estava ciente de que eu tinha crise de ansiedade, crise de pânico, ela entendia.
Mas, cada animalzinho que eu via morrer, dilacerava meu coração. Eu fui ficando cada vez mais sensível às mortes, às eutanásias, e em determinado momento, minha medicação acabou. Eu ainda não tinha dinheiro pra comprar, e foi o filho dela quem notou que eu estava diferente, parecia tensa, parecia outra Annie, não aquela que ele estava acostumado a ver.
Ela me convidou a participar de um coaching, se você o conhece, saiba que eu o desejo o melhor, mas não foi o melhor para mim naquele momento.
Rogério Menossi. O curso dele, de dois dias, me deixou pior ainda. Quando ele disse:
"Cada um tem aquilo que merece", eu morri, ali mesmo.
Não, não é possível. Eu não mereci nada daquilo. Não mereci nenhum soco, nenhum tapa, nenhuma crise de pânico, não mereci nenhum medo de morrer. Eu não queria me expor e voltar naquele passado.
Essas palavras ecoaram por dias em minha mente, até que eu entrei numa verdadeira crise de ansiedade e tive que falar com meu médico - eu não conseguia voltar ao trabalho. Ele me deu dez dias para ficar em casa. Quando voltei, com toda a razão, ele decidiu me demitir.
Mas foi generosa, humana e eu sempre a amarei por ter me respeitado até o último momento e nunca ter deixado de cumprir com a sua lealdade. À ela, seus familiares e seu trabalho, eu desejo paz e sucesso.
E, não podia deixar de mencionar aqui, a pessoa que fez tudo isso acontecer: minha amiga, minha veterinária que me colocou lá dentro, Isabela Padovani. Eu tenho infinito respeito e valorizo demais seu trabalho, você sempre será o anjo da guarda dos meus filhos de quatro patas. Amo sua habilidade, compaixão, amizade, e amo a sua dedicação.
Perdi então o emprego.
Voltei a fazer faxinas, porque não me sentia mais capaz de me apresentar em uma empresa tão perdida quanto estava.
Eu era excelente com comércio exterior, era excelente com outros idiomas, era excelente com o meu trabalho, mas cadê essa pessoa?
Ela tinha medo de entrevista.
Tinha medo de ser julgada.
Tinha medo de sofrer preconceito por ter estado fora do mercado de trabalho - na área que amava - há quase cinco anos.
Criei forças para criar uma lista de clientes para atender durante a semana.
Fiz da faxina o meu ganha pão, mas sentia profunda tristeza por ter deixado aquele currículo que nunca teve parada, de repente largado pelos cantos.
Eu via os grupos postando "vaga disso", "vaga daquilo", mas o meu currículo nunca era selecionado.
As pessoas querem te ajudar à maneira delas, mas nem sempre funciona.
Como vou explicar para a empresa que sou sensível? Que tenho traumas? Que lido com eles diariamente?
De todos os trabalhos que fiz, nenhum me causa arrependimento. Tive quem me estendeu a mão quando todo mundo se fechou em casa em quarentena e eu não pude trabalhar.
Fui chamada para free-lance em outra empresa, achei que era para fazer faxina, mas, para minha surpresa, era para trabalhar sentada mesmo ali na frente do computador, eu só precisava digitar bem e digitar rápido, não errar, e ir aprendendo.
Tudo começou realmente bem, eu sentia o carinho das pessoas por mim, mas meus problemas me trouxeram insegurança, medo de não ser aceita. E tenho tentado lidar - com os medos, frustrações e essa angústia de estar sempre a um passo de cometer um erro, um erro que eu não quero e não posso cometer.
Meu desejo é que isso passe. Que eu passe por cima disso, e consiga me superar e trazer meu verdadeiro eu de volta, para mostrar que não menti em nenhum momento sobre a minha vida profissional.
Como eu era - Eu me busco todos os dias quando vou dormir e ao acordar. Às vezes não me encontro e vou em frente, sigo porque sei que desistir não está em mim.
Sigo o mantra: "VAI, E SE DER MEDO, VAI COM MEDO MESMO"
A vida daqueles que sofrem com lembranças de traumas, daqueles que precisam se manter devidamente medicados para lidar com o dia a dia não é nada fácil.
Que o mundo veja as pessoas com mais amor, empatia.
Que o mundo entenda que queremos dar o nosso melhor.
Seja como for, seja onde for.
Aos que leram, muito obrigada.
quarta-feira, 21 de março de 2018
Masterchef, mastermind, master of the laughs
Primeiro, tomei um susto. Vim acompanhando nos últimos meses as postagens informativas de um GRANDE amigo a respeito do sócio dele que estava com câncer.
"ELE SE FOI"
E me bateu uma culpa imensa por ter deixado que meu relacionamento conturbado me tirasse da companhia tão preciosa das pessoas que me fizeram tão feliz e completa ao longo dos anos. Os amigos, a família que soube (essa, sim) escolher.
Me permiti sair de mim, não me olhar mais no espelho, não refletir mais uma imagem agradável - mas não sei em que ponto isso tudo começou, ao menos, não exatamente.
Quando li esta curta e avassaladora frase, sabia que precisava ler todo o resto do texto que vinha logo a seguir "O QUE APRENDI NOS ÚLTIMOS MESES COM MEU AMIGO QUE PARTIU" (como de costume). Mas já com a decisão tomada: eu tinha que ver meu amigo.
Enquanto lia, meus olhos foram se inundando com as lágrimas. Precisei parar, sair da sala, secar cuidadosamente pra não virar um borrão só por causa do rímel, e novamente voltei os olhos para aquela verdade dilacerante.
Quero antes de qualquer coisa dizer que ao ler "sua doença, nossa cura" não se trata apenas de como o Bruno deixou sua marca na vida do meu amigo. Mas também sobre como isso me afetou e dividiu as águas de uma maneira linda e inesperada.
Ah, o Raphael!
Eu ria até minha barriga doer, uma risada tão nossa, tão única. Sua experiência no mundo dos negócios me ensinou UMA LIÇÃO que talvez eu nunca tenha tido a oportunidade de mencionar: a resiliência é que é a chave para a vitória. Mas não sozinha. Ela e o foco precisam namorar sério, precisam realmente ter um relacionamento de amor, afeto, respeito mútuo e constante.
Ríamos muito no passado, mas eu sempre estava atenta a tudo que ele dizia. Acho que isso me manteve de certa forma "viva" para continuar a batalha. Para recomeçar do ZERO "sem reclamar".
O que agora me leva ao momento em que eu disse "preciso te dar um abraço", confesso que sem esperança dele dizer "claro, só se for agora".
Mas, mesmo cheio de compromissos, ele disse que SIM.
E meu rosto imprimiu um sorriso imediato.
Passei o resto do dia contando os minutos para finalmente poder estar na companhia dele, até que a mensagem chegou: te pego às 20h30.
Nem deu tempo de nos olharmos, já estávamos rindo de novo. As mesmas piadas de antes de Cristo, e conseguíamos achar graça. Fui apresentada ao meu novo super amigo querido e em dez minutos, já tínhamos nossos próprios toques legais de melhores amigos.
Achei que ia tomar uma paulada, uma surra da verdade, mas a verdade é que a gente tomou tombos pra caramba nos últimos anos, e tomamos uma verdadeira surra de pau nos últimos meses, mas nós ainda estávamos bem vivos, resilientes e focados. E ainda éramos a piada um do outro, e do outro outro (não é um erro de português, não, é piada interna, mesmo).
Finalmente entendi que estava encerrando um ciclo. Com direito a um jantar digno de masterchef. Daqueles que você vai tomando vinho e contando histórias, depois já senta no chão, mesmo. Porque afinal de contas, a casa é praticamente sua, tá em casa, tá tudo certo.
Nem vi a hora passar, só sei que me diverti do início ao fim, e mesmo contando as passagens mais tristes, não havia mais "peso" em nossa voz.
A grande lição para mim sobre tudo isso: nossa amizade verdadeira, o distanciamento por minha culpa, nossas vidas pessoais e profissionais... É que temos já a nossa marca na vida do outro. E não tem como falar de mim sem falar dele. E acho que vice-versa.
Encerro parafraseando seu próprio texto:
"Oscar é um prêmio para quem representa, mas você VIVEU, portanto ele é pequeno para você"
Graças aos céus, temos a oportunidade de VIVER e estar na vida daqueles que amamos e isso é tudo que mais importa no mundo. Não apenas fazer um papel, não apenas ter uma função, mas VIVER, de fato.
OBRIGADA por nunca, nunca ter desistido de mim.
P.S. Este é meu primeiro texto dos últimos DOIS ANOS.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Meu dia de Clarice Lispector
Madrugada
fria. Eu, alta como uma pipa.
De álcool, de tédio. Já tinha testado todas as posições que minha cama
de casal pode oferecer, mas não era capaz de permanecer por mais de cinco
minutos no mesmo lugar. Queria acreditar que havia adormecido, mas meus olhos
se abriam estatelados ao som de insignificantes grilos.
“Droga,
estou acordada...”, pensava, irritada.
Abri
e fechei o laptop umas quinze vezes, até finalmente desistir de lutar com a
vontade gigante de escrever.
Redigi
umas cinco frases e parei.
“Banho.”
Desci
as escadas meio cambaleante, concentrada para não tropeçar nos degraus. Cheguei,
por fim, ao banheiro do andar de baixo.
Consegui
ficar calma por longos dez minutos. E veio o frio. Demorou mais meia hora até
que meu queixo parasse de tremer. A essa altura, eu já tinha tomado a segunda
dose de whisky e o relógio marcava impressionantes 02:31 am.
Abri
o laptop mais uma vez.
“Preciso
de música nessa porcaria”.
Isso...
“Canto para minha morte”, é o que eu preciso agora.
Raul
Seixas, claro. Porque quando você não está no trono de um apartamento com a
boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, você certamente
está assim, só que em outro cômodo da casa. E só o Raul entende dessa merda.
Ou
talvez eu até pudesse ouvir “quando eu morri”.
Porque
o vazio era tão, mas tão grande, que só faltava morrer, mesmo. Seria um alívio,
porque pelo menos eu não teria que segurar o coração para não sair do corpo,
tão acelerado que estava.
Um
milhão de pensamentos, o coração acelerado, os olhos esbugalhados, o corpo
detonado, o coração partido, as horas voando, os braços dormentes, o cansaço, a
adrenalina, e o pior de tudo: o silêncio. Minha respiração ofegante me irritava
demais.
Celular.
Laptop. Celular. Laptop.
Cigarro,
cigarro, cigarro. Até cansei de usar o isqueiro e decidi acender um cigarro com
a ponta do outro. E aí cansei de fumar.
E
nada de sono.
Celular.
Raul me irritando. Silêncio.
“Ok,
talvez um pouco de Sons of Anarchy”
Mas
que merda, eu não conhecia os personagens, e eles falavam gíria demais.
Irritante.
Nunca
fui tão ignorada, sentia cheiro de coisa errada no ar, e meu faro sempre foi
excelente. Pensava em tudo, nada fazia sentido. Eu estava horrível. Mas
horrível por dentro. Só eu conseguiria me ver daquela forma. Ninguém mais. Mais
cedo, havia ajudado duas grandes amigas. E antes disso, havia jantado com
outra. Eu ri tanto, fiz planos, tomei cerveja, comi frango com páprica picante.
Estava tudo bem. Até não estar mais.
E
nada do que eu pensasse, nada do que eu dissesse, poderia reverter aquele
quadro estanho que havia sido pintado.
Quem
é que dorme assim? E isso é justo? Eu estava na minha. Vivendo a vida, fazendo
minhas coisas. E tudo estava calmo.
Não
tinha sido outro dia mesmo que combinei a viagem com Michael para
Guatemala? E o Rock in Rio? E o
Helloween? E os homens todos que queriam estar comigo? Por que tudo isso estava tão sem sentido? Por
que entre sete bilhões de pessoas, tinha que ser justo alguém que não dá a
menor importância pra minha existência? Haverá mais dias como este?
Eu
vou mesmo ter que gastar um dia inteiro da minha vida entre lágrimas e músicas
de merda que me deixam ainda pior?
Não
quero ouvir música de feminista berrando como somos tão fortes. Eu não quero me
sentir forte.
Quero
ser fraca! Exijo poder exercer meu direito à fraqueza.
E
como pode um ser humano ser leviano diante de sentimentos tão sinceros? Quem
ousaria? Que espécie de pessoa podre faz isso?
Senti
vontade de ligar pra uns três ou quatro carinhas para pedir perdão. Sério, eu
queria ficar em paz com eles. Sempre haverá o fantasma do Sauro. E do Leandro,
do Gustavo, do Mark. Eu parti o coração deles todos. E o pecado deles? Gostar
demais de mim. Então é isso, eu mereço essa merda toda.
Amanheceu,
me toquei de que não havia dormido. Peguei uma mensagem no celular. A mensagem
que só confirmou o que eu já sabia, o que o universo sabia, mas me faltava
aceitar. Às vezes você se importa “horrores”. E a outra pessoa simplesmente não
se importa. E se você acha que isso é um castigo, o problema é seu.
E
fiquei com vontade de cavar um buraco pra enfiar minha cabeça dentro. Fiquei
com mais vontade do que nunca de morrer. Queria sair correndo, sair da frente
do celular, estava me sentindo sem roupa na frente de quarenta alunos do
primeiro ano do ensino médio. Sentia o mundo rindo de mim. Do quanto eu era
patética. Era como se eu tivesse sido muito idiota por meses, e agora a
idiotice estava exposta numa feira do ramo da tosquice.
Imaginei
que um dia essa mensagem fosse chegar. Imaginei um diálogo, eu vi todas as
cenas, mas aquela filha da puta de mensagem resolveu não seguir meu roteiro
mental.
Deu
tudo errado. E para minha tristeza, eu ainda estava ali. Como quem junta cacos
de vidro de uma louça caríssimal, fiquei tentando encontrar desculpas para mim
mesma. A única pessoa a lamber minhas feridas era eu.
Às
oito da manhã, eu tinha que parecer jovem e bela. E pareci. Pra isso o homem
criou o Engov.
E
os chefes que carregam Engovs e oferecem os comprimidos para as assistentes de
ressaca.
Ah,
foda-se.
Que
se dane tudo isso. Hoje tem mais. Você acha que estou com medo de não dormir? O
homem criou a maquiagem. E ela é útil para as reuniões matinais – aquele
momento em que você tem que parecer sóbria e saudável.
E
viu Deus que o café era bom. Consideramos justa toda forma de cafeína. Todas as
inas.
Deus
abençoe essa merda toda, e que o tempo passe depressa. Ou não. Tanto faz. Já
fui vasculhada, desrespeitada, quem sabe agora não role um “até nunca mais”?
É
a deixa perfeita.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
As qualidades que tornam pessoas inesquecíveis
Embora apenas uma ou outra seja realmente memorável. Pessoas
inesquecíveis possuem qualidades que nem sempre estão à vista. Mas se mostram
nos momentos em que se fazem realmente necessárias – na mente e no coração das
pessoas ao seu redor.
Elas acreditam no inacreditável, enquanto a maioria tenta
alcançar o alcançável, por isso a maior parte das metas e objetivos são somente
incrementais, e não inconcebíveis.
Pessoas memoráveis esperam mais – delas e dos outros. E elas
te mostram como chegar lá. E te trazem junto para o que parecia ser uma jornada
inacreditável.
Essas pessoas enxergam oportunidade na instabilidade e na
incerteza.
Problemas inesperados, obstáculos imprevisíveis, grandes
crises. A maioria se recolhe ao momento de derrota e espera a tempestade
passar.
Alguns poucos enxergam a oportunidade na crise. Sabem que é
muito difícil tomar grandes decisões, mesmo as necessárias, quando as coisas
estão relativamente fáceis. Podem reorganizar um ambiente de forma a torná-lo
novo.
Carregam suas emoções em suas mangas. São profissionais em
separar o emocional do racional, e, ainda assim, são abertamente humanos.
Mostram excitamento sincero quando as coisas vão bem. Mostram sincero
agradecimento pelas tentativas daqueles que fazem parte de sua vida.
Também mostram sincero desapontamento – não nos outros, mas
neles mesmos. Celebram, sentem empatia, se preocupam. Às vezes ficam frustrados
e até irados.
Protegem os outros do trem, nunca lançam contra ele.
Pessoas memoráveis vêem o trem vindo e empurram as pessoas
para trás, mesmo que essas pessoas não tenham visto o perigo iminente.
Mas não querem crédito por isso. Pessoas memoráveis lideram
pela permissão, pela natural aceitação. Porque são naturalmente líderes.
Abraçam grandes propósitos.
Não são lembrados só pelas gargalhadas, mas também pelos
pequenos momentos em que sua atitude fez toda a diferença, algumas vezes até
entre a vida e a morte.
Elas aceitam o risco real.
Muitas pessoas tentam ficar em algum tipo de pódio
superficial, uma espécie de situação confortável. Roupas confortáveis, carros,
casas, pequenos luxos. Gostam de fazer com que tudo isso apareça e pareça o
tipo de vida ideal para o resto das pessoas, enquanto as realmente memoráveis
ficam de lado desejando a posição não popular. Dão passos incomuns. Aceitam o
desconforto de ignorar o status quo e se arriscam em águas turbulentas.
Aceitam o risco real não pelo bem da recompensa que
acreditam ser possível.
E pelo seu exemplo, inspiram outros a também se arriscarem
para alcançar aquilo que acreditam ser possível.
Inspiram pessoas a acreditarem em seus sonhos, porque nunca
dirão “eu desisto” – você saberá reconhecer pessoas memoráveis por suas
palavras, ações e, o mais importante – pelos seus exemplos.
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Eu fecho os olhos
Parafraseando Clarice Lispector, "não sou triste assim, é que hoje estou cansada". Incontáveis letras de músicas me vêem à cabeça enquanto monto frase após frase.
Em "Only God Knows Why", Kid Rock disse: "eles dizem que todos os homens sangram como eu, e eu acho que esse é o preço que se paga por ser o tipo de pessoa que sou (...)".
Nossas vidas são de modo geral bem parecidas especialmente nos baixos. O que nos diferencia, talvez, seja a forma que cada um lida com seu momento ruim.
Eu não sei se tenho um padrão para esse tipo de momento. Quando vem, em geral, é de surpresa e quase sempre não estou com todas as palavras certas prontas. Às vezes sequer sei o que dizer. E em determinadas situações, preferi simplesmente fechar os olhos para poder suportar. Como quando o cérebro manda uma mensagem para todo o corpo dizendo que é hora de desligar para sobreviver. Então desmaiamos. E quando acordamos, há um sedativo pingando com o soro direto em nossa veia. Estamos deitados, sendo observados com cautela, sendo cuidados por outras mãos, que não as nossas. Tudo, tudo para que o coração consiga se restabelecer e prosseguir por mais alguns anos.
Fechar os olhos, mesmo sabendo que ao abri-los, o pesadelo ainda estará lá, fez com que eu suportasse quando não havia mais um pingo de energia ou número de telefone para o qual pudesse ligar.
Foi apenas um "modo de segurança". Solitário, errôneo, criado involuntariamente por mim, e trabalhei com o mínimo das funções para poder fazer uma reinicialização que não causasse danos.
Mas há efeitos colaterais para tudo. Qualquer tratamento com qualquer tipo de remédio tem seu preço. Pode custar a saúde do fígado, dos rins, do cérebro... Há sempre um preço.
Quanto custa hoje o meu fechar de olhos? Mais do que há em minha conta. Mais do que há em meus músculos, nervos, ossos, mais do que há em cada célula do meu corpo.
E desistir não é uma opção. Só posso fechar os olhos temporariamente, porque preciso do dia seguinte. Preciso de mais uma manhã, porque ainda não acabou. Preciso de alguns anos e, acima de tudo, preciso acreditar que faz sentido operar desta maneira.
Porque ainda não encontrei outra forma de sobreviver. A única coisa que me fez sair correndo com lágrimas nos olhos - sempre - foi ela.
A única razão. A única missão. E eu falho mais do que acerto. Mas não desisto. Quanto está doendo agora?
Tanto quanto se pode suportar ou talvez um pouco mais.
Mas não sou triste, nem uma perdedora. Não sou fraca, nem indecisa.
Não sou de aço, mas não abro mão sem lutar até não me restar mais nada. E quando não houver mais nada, fecharei novamente os olhos e esperarei até a pior parte passar. E que Deus me ajude. Que eu tenha a chance de acordar medicada, sedada, que eu tenha a chance de continuar.
Quero não perder a fé em minha capacidade de sobrevivência. Quero não perder a fé em minha capacidade de ensinar. De educar. De ser lembrada não apenas pelas dores que possa ter causado, pelas cicatrizes que tenha deixado, mas também por todo amor que tentei dar. Não sou triste assim... É que hoje estou cansada.
~~
ASM
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Roda gigante
Estava viajando. Já havia passado pelo que posso chamar de
maior terror do mundo – doze intermináveis horas dentro de um avião cercada de
estranhos que não falavam o meu idioma.
Às vezes eu entendia o que o comandante falava quando
passava do francês ao inglês, mas ainda assim, era agonizante.
Então, enquanto a agonia consumia todo o meu apetite e fazia
o álcool das garrafinhas de vinho que tomei sem hesitar evaporarem de alguma
forma dentro de mim, eu pensava no preço que tinha que pagar para realizar um
dos grandes sonhos que nutri, apesar de toda a bagunça que tinha sido minha
vida na altura dos vinte e cinco anos.
Imaginava o quanto aquelas pessoas chiques haviam se
preparado para finalmente descerem lindas e ricas do avião – deviam ter
dinheiro pra caramba. Eu, coitada! Emprestei casacos, calças de inverno,
toucas, botas, emprestei quase tudo.
Levei algumas centenas de euros, um cartão de crédito e a fé
de que ainda que eu tivesse que trocar o almoço pela janta, faria isso na
cidade luz. Eu trocaria o almoço pelo jantar em Paris.
Nunca fomos de família rica. Eu não podia e nem tinha
dinheiro pra gastar. Mas havia algo que eu sabia fazer muito bem: sentar,
observar e escrever.
Era uma noite gelada e úmida. Estava a alguns degraus de
tocar a água congelante do Rio Sena com uma bolsa imensa repleta de toda sorte
de utensílios.
Peguei um caderninho que havia comprado no aeroporto e
vasculhei até encontrar a caneta que me fizera companhia durante a viagem de
ida.
Ao longe, via a roda gigante toda iluminada. Ela era a
personificação do romantismo. Não sei dizer se as pessoas que formavam aquela
fila imensa para um passeio de uma volta lenta naquele objeto estavam em busca
de fortes emoções ou apenas queriam ser tomadas pela emoção de viver um momento
de extremo romantismo. Se fossem amigos, provavelmente se lembrariam daquela
noite com poemas, frases de autores famosos escritas sobre as fotos tiradas nas
diversas alturas da roda gigante. Essas pessoas tinham tanta sorte com seus
sorrisos imensos. Foi quando me dei conta de que estive durante muito tempo
sozinha demais para pensar em amor, mas precisava, ainda que inconscientemente,
acreditar que tudo isso passaria. Como meu medo de voar. De não dar conta do
recado, de não saber o que fazer quando algo der errado. Eu estou em minha própria
montanha russa. Claro!
Voei de volta, depois voei outras vezes e prometi que nunca deixaria
de fazer mais nada por medo. Eu certamente cederia às tentações com mais freqüência
e o único detalhe que permaneceria como estava era o meu coração no que dizia
respeito a deixar outro homem entrar. Até que a hora certa, se é que existe
isso, chegasse.
Quando estou no banco do passageiro com as mãos suadas,
vendo o velocímetro marcar uma velocidade bem maior que a permitida, fecho os
olhos e penso: estou alta o suficiente para morrer sem sentir pena de não viver
mais? Porque amo tanto a vida!
Quero a loucura que me permita inspirar e expirar sem
cessar. Quero ter a coragem dos pára-quedistas. Mas quero viver também. E
talvez, a grande sacada da vida seja justamente o fato de que o meu prazo de
validade aqui é contado e a única coisa que meu medo fará por mim é eliminar
duas ou três grandes oportunidades de sentir a adrenalina consumindo cada célula
do meu corpo. Seriamente, eu preciso pensar com mais carinho e afinco a esse
respeito.
Troquei a cerveja pela vodca e descobri que prefiro vodca
com guaraná. E três pedras de gelo.
Fico alta por prazer. Porque quero ficar bem alta. Senão
tomaria só o guaraná.
Aquelas pessoas felizes da roda gigante de repente não são
de modo algum mais felizes do que eu com minha vida simples. Há esse cara que
me aguarda do lado de fora com óculos escuros e pose de bad boy. E eu amo vê-lo
ali quando encerro meu expediente. Porque então começa outra parte do meu dia –
a que eu sei que será, de verdade, uma roda gigante. E eu vou rir, chorar,
gritar, silenciar, fotografar, postar, comentar. Farei tudo que sentir vontade,
porque sei que serei tomada por todo tipo de emoções. Com doses ordinárias de
vodca. Desculpem. Eu não sei mais como é pedir desculpa por abrir o coração.
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