terça-feira, 19 de março de 2013

Uma declaração de amor sem fins lucrativos.


Cheguei vazia como se tivessem arrancado meu coração de mim ontem à noite. O corpo estava tão relaxado que eu podia jurar que me injetaram qualquer droga. Só que não. Era só um estado de paz que eu não sentia há muito tempo. E quando não se tem paz há muito tempo e depois se toca nela outra vez, é meio como estar dopado. Eu até tinha fome, mas pensava: Posso passar sem essa, a vontade de ficar aqui em silêncio é tão grande, tão intensa. Eu ficaria estática daquele jeito por horas. E então comecei a olhar umas fotos – algumas recentes e outras de dez anos atrás.
E meu espírito novamente se encheu de paz. Porque eu entendi algumas coisas que tinham ficado nubladas por anos. Eu estava ali, deitada em minha cama, olhando para um sorriso que por anos foi a razão da minha insônia e não havia lágrimas. Eu fiquei imaginando o quanto isso me fez falta, e quão abençoada sou, porque alguém lá do andar de cima resolveu me dar mais uma chance. E ontem de manhã, com o dia começando, enquanto ia até a padaria, eu disse “Todos nós merecemos uma segunda chance... a vida às vezes não nos dá essa oportunidade, mas quando dá, também cabe a nós tomar a decisão certa – a decisão de aproveitá-la”.
Muita sabedoria para uma manhã qualquer.
Mas quando algo está para acontecer – ainda que seja apenas uma grande verdade a ser revelada, acredito que nosso coração possa sentir. E de alguma forma, essa mensagem é transmitida ao cérebro e então, nossa boca nos surpreende. É uma mágica.
Ontem, por alguns minutos, pude experimentar não sentir absolutamente nada: nem dor, nem mágoa, nem tristeza. Apenas a paz de um coração desprovido de qualquer dúvida.
Só então me fiz a seguinte pergunta: quanto tempo temos? E o que estou fazendo com esse tempo que me foi dado? Este brinde, esta segunda chance, tão rara. Tenho o direito de ficar confusa, eu sei. Tenho o direito ao grito, se isso ajudar. Tenho o direito de sair correndo quando me sentir assustada. Tenho o direito de fechar os olhos se por acaso a imagem diante de mim não me fizer sentir bem. Conheço os meus direitos e faço uso deles. Mas dos direitos que possuo, o de voltar é o mais valioso. Ter o direito de voltar.
E eu voltei, desengonçada como só eu. Mas voltei.
No caminho de volta, passei por todos os lugares que havia deixado para trás. Tranquei portas: essas, eu não pretendo abrir mais. Apenas observei de longe uma última vez. E continuei meu caminho, chegando ao destino: uma casinha pequena, bem simples, ainda inacabada. A mocinha veio me receber com rosas – lindas e perfumadas. Foi ela quem contou sobre a dádiva da segunda chance. Pediu-me para aproveitar esse presente. Ele é meu. Algumas coisas ficaram inacabadas em minha vida, mas este presente não ficará. O que eu tenho que fazer? Como aproveitá-lo?
Ame.
Apenas ame. Cuide com carinho. O presente é seu, porém, por tempo determinado. Tem prazo de validade. Aproveite e dê o seu melhor agora. Hoje. Nesta noite. Seu presente não deve lhe machucar, e nem você a ele. Portanto, daqui pra frente, só o melhor. Fique com o lado bom. Não tem que ser um fardo carregá-lo. Carregue-o em você com alegria, pois logo será apenas uma lembrança. Que a lembrança seja boa.
Esse já era o fim da linha. Com um abraço forte nos despedimos e eu fui para casa. Sem lágrimas. Sem dor alguma. Em paz.
Esqueci a resposta para quanto tempo temos. Que seja a menor das minhas preocupações. Só quero dedicar parte do meu pensamento, parte do meu coração a esse incrível presente. Quero que ele saiba que meu amor não tem nome, cor, tamanho e não pede absolutamente nada. Meu amor é pura gratidão, a quem o tenha me dado e ao próprio presente em si, porque em seu momento de livre-arbítrio, escolheu se voltar a mim.
Ao meu presente, fica aqui minha declaração de amor sem fins lucrativos: você tem meu amor, minha lealdade, minha amizade, meu pensamento e parte de meu espírito, onde quer que vá, em qualquer tempo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Isto é apenas um teste

E então você descobre uma ferramenta que aniquila com suas ilusões de ter sido compreendida através das coisas que escreve a respeito de si mesmo. 
Pelo simples fato de que as visualizações são rastreadas por sistema operacional e país. Ah, que pena.

Mas você, que por alguma razão acabou parando aqui e teve a curiosidade de ler qualquer coisa, por gentileza, deixe um comentário, um oi já serve. É apenas um teste. Eu quero saber se você me leu.

Obrigada. 

Hoje fui visitar o túmulo da minha avó, falecida em 25 de Dezembro de 2006. Precisei de mais do que coragem. Devo ter prometido a mim mesma que jamais iria lá um milhão de vezes, mas cansei de ouvir que tenho que deixá-la ir em paz. Decidi que diria adeus - uma conversa franca, só eu e ela. 

Assim, pedi à minha família que me deixasse ali com ela sozinha um pouco. O sol estava em seu ponto mais alto, o mármore quase queimava ao contato com a pele, mas insisti e permaneci sentada sobre seu túmulo. Primeiro chorei o que precisava chorar. E parece que eu tinha muito o que chorar. Fiquei tímida, não sabia como começar uma conversa com alguém que amo tanto depois de sete anos. Era estranho, mas precisava exercitar a minha fé de que ela podia me ouvir naquele momento. Não sei se algum dia terei algo assim com a minha mãe. Mas com a vovó, eu sempre tive. Éramos amigas, comparsas, éramos feito unha e carne. Eu não queria imaginar um mundo em que ela não existisse - isso era pior que a própria morte, até que a morte finalmente chegou e a tomou de mim abruptamente, numa manhã de Natal que ficou gravada pra sempre, me lembrando de que se antes havia algum motivo para comemorar - e havia, pois ela também nasceu em 25 de Dezembro - agora já não há mais.

O problema é que com a morte dela, nossa ligação com a família meio que esfriou. Da minha parte, foi por puro medo de encarar os lugares que ela ia, as pessoas que ela via, as cidades que ela costumava visitar. Eu simplesmente não queria passar perto de qualquer coisa que me fizesse lembrar. Mas essa é a família que ela tanto amava. Claramente havia algo de muito errado que precisava ser resolvido. Entendi que esse deveria ser então o primeiro passo. A última vez que estive na casa da minha tia avó foi justamente no dia do enterro da vovó. E eu sempre amei demais as duas. Aliás, elas pareciam gêmeas - física e psicologicamente falando.

Comecei dizendo que era difícil estar ali, e de fato, a sensação de vazio parece te dominar por completo. Mas aos poucos, meu monólogo começou a fluir e expliquei o motivo de ter ido até lá, as razões de ter ficado tanto tempo sem fazer uma visita sequer... E terminei dizendo que iria voltar - não porque teria que me despedir de novo e de novo, mas apenas porque ela sempre me falou daquele cemitério como sendo um lugar de descanso das pessoas que ela mais amou na vida, e que era onde ela gostaria de poder descansar. Ela tinha muito respeito por todos ali. E eu devo esse mesmo respeito à ela. 

O caminho para se chegar no cemitério é lindo. Uma estradinha cercada de árvores que dão flores o ano todo, aquela sombra bonita fazendo desenhos no capô do carro, a distância em si - você tem que fazer uma pequena viagem de uns quarenta minutos para chegar até lá. Passamos por sítios, pelos cruzeiros, pelos pequenos botecos rurais, e, finalmente, a estradinha de paralelepípedo que dá acesso ao cemitério. 

Todo o percurso meio que te prepara espiritualmente para o que você verá depois. E, depois, o silêncio é ensurdecedor. 

Não foi triste, foi apenas pesado. Difícil. A saudade parece ganhar forma. É estranho. Mas eu fui. Fotografei  a lápide. Eu quero me lembrar dessa imagem, porque era exatamente assim que ela sempre me disse que queria poder descansar no fim.

De cima para baixo: minha avó, Natalina Coleto. Meus bisavôs, Florinda e  Cesare Coleto, meu avô Antonio Coleto e meu primo, Mauro Cezar Coleto.



sábado, 27 de outubro de 2012

O que Annie disse - Capítulo 1 - One day in your life

Capítulo 1 - One day in your life



Este poderia ser mais um post sobre qualquer bobagem. Ou apenas mais um daqueles textos cansativos sobre como venho me esforçando nos últimos anos para conseguir manter o equilíbrio em minha vida. Só que não. Há dias venho sentindo um incômodo muito grande, é como se eu precisasse parar aqui um pouco e me deixar levar pelas palavras. Eu sei sobre o que quem vou escrever, mas não faço ideia de como isso vai terminar. 

Tudo começou quando eu ouvi a música "One day in your life", do Michael Jackson. Música do início da carreira solo, final dos anos setenta. Eu nem tinha nascido, ele já era um ídolo internacionalmente conhecido. 
Tendo mencionado este detalhe com respeito a data da música, há que se imaginar que a ouvi num daqueles programas de rádio de sábado de manhã: "O melhor do flash back". Eu devia ter uns oito ou nove anos, não me lembro com exatidão. Fato é que, em meados de 1990, eu estava começando a olhar com mais afinco o mundo ao meu redor. Estava então com sete anos, cheia de vontade de descobrir tudo. 

Sempre tive meu universo particular, e no meu mundinho, eu era o centro das atenções. De quando em quando acabo escrevendo um texto que faz referência ao fato ter preferido meu mundo à realidade mais do que deveria. Quem não? 
Ao ouvir pela primeira vez uma música que te chama atenção, como você reage? 
Eu peguei a caneta mais próxima, uma folha de caderno e fique com a orelha colada à caixa de som, esperando o locutor dizer o nome do "artista". Depois peguei uma fita cassete gravável (mesmo quando era uma fita "original", eu colava durex nos dois pontos de cima que eram abertos para não permitir gravação e detonava com os hits das novelas preferidas da minha mãe - SEMPRE fiz isso) e fazia plantão. 

Quando ele dissesse o nome, eu anotaria, depois ligaria na rádio para pedir "bis". Eu fiz tanto isso! E aquela deve ter sido uma das primeiras vezes. Não deu certo logo de cara, porque aquele programa tinha todas as músicas pré selecionadas, então não seria possível repetir a música, mas havia outra coisa que a rádio podia fazer por mim: durante as madrugadas, aquela rádio tinha um programa de músicas românticas, então combinei que iria ligar para pedir aquela música. Aí deu certo. Consegui gravar "One day in your life", do Michael Jackson!


Então agora eu sabia o nome do artista e também o nome da música. Faltava-me foto. Disco. Eu precisava ligar o nome à pessoa. 
Devo lembrá-los que a religião dos meus pais à época não permitia televisores nas residências, de modo que não tínhamos um. Eu não sabia como era ter TV em casa. Quando queria assistir um desenho animado, ia pra casa da minha vizinha, mas ela era mais nova que eu, então jamais saberia quem diabos era Michael.


Minha mãe tinha alguns amigos numa das rádios de Americana (Notícia FM), vez ou outra eles iam até a sorveteria da qual ela era proprietária e administradora. Pedi a ela que me ajudasse a encontrar mais músicas através daqueles amigos. Ela me contou que o Michael era negro, que cantava com os irmãos dele, que faziam muito sucesso. Daí conheci Ben, I'll Be There, Stop The Love You Save, entre outras. Mas ainda não tinha visto a pessoa. 

Naquela época, se você queria saber sobre seu artista preferido, você podia:
1 - Assistir TV
2 - Vasculhar bancas de revista atrás do seu cantor.
E foi então que começou a minha saga.
Para minha surpresa, Michael Jackson era simplesmente lindo. Um rosto incomum, traços marcantes, sobrancelha em V (sempre fui apaixonada por sobrancelhas bem desenhadas), roupa excêntrica, e, de algum modo, mesmo ali naquela cara de malvado, havia uma ingenuidade no sorriso que me deixou abobada. Estamos falando de uma das fotos de divulgação do álbum BAD, mas eu ainda não fazia ideia da existência deste. Aquela não era uma edição nova da revista, na verdade, estava num plastico junto com uma edição mais recente. Mas nem por isso ela deixava de ser muito interessante para mim. 

Comprei, é claro. Era uma revista Bizz (de letras traduzidas e matérias musicais), com Michael na capa. Hoje, quem tem, pode ter certeza, tem um tesouro nas mãos!

Revista Bizz de 1987, hoje raríssima, ainda bem preservada.

Mesmo naquela época, era muita informação. Eu sabia que aquilo seria somente o começo de algo que parecia não ter fim. Eu estava definitivamente gostando demais de cada nova imagem, de cada novo som. E queria mais, muito mais.
Continuei a saga da busca nas bancas, e comprei muita coisa. Às vezes cabulava aula e passava as manhãs rodando outros bairros atrás de mais material. À noite, esperava ansiosa pelo locutor, ele já me conhecia. Eu sempre ia pedir mais Michael Jackson. Era ainda mais gostoso quando ele traduzia as letras ao vivo. Eu ficava imaginando como seria fantástico conseguir entender o que Michael cantava. 

Não fiquei imaginando muito tempo, porque logo depois, no final de 1991, eu fui pra escola de Inglês. Meu curso era VIP, então ficávamos eu e o professor fechados na sala sem pronunciar nenhuma palavra no meu idioma nativo. Confesso que às vezes eu queria morrer de raiva, porque no início não entendia quase nada. As mímicas ajudavam muito, e àquela altura, eu já tinha pilhas de revistas de letras traduzidas. Uma das revistas, tinha a música "Give In To Me". Eu já tinha conseguido gravar em fita cassete graças às madrugadas românticas da Notícia FM, mas, mais do que nunca, eu precisava ter meu disco! Comprei o Dangerous poucos meses depois do lançamento e ele era meu amor maior. Meu primeiro disco! Era muita alegria.


LP Dangerous


Para minha total felicidade, o disco era duplo e as subcapas eram forradas com as letras de todas as músicas! Naquele fim de ano, meus pais compraram um aparelho televisor de 14". O que para nós estava de excelente tamanho. Eu finalmente ia poder apreciar meu ídolo em performances de vídeo. O que no mundo poderia ser melhor que isso? 

Do Dangerous ao Off The Wall foi uma questão de dias. E lembro de achar tão incrível como uma pessoa conseguia mudar tanto de aparência e mesmo assim continuar linda. Era um dom dele. Só dele. E os videoclipes curtas? O que dizer deles? De tirar o fôlego, no mínimo. 

Meu pai surpreendeu a todos nós quando nos comprou um videocassete. Agora tínhamos quase tudo que uma família normal precisava. E eu finalmente poderia ter meu amor em vídeos para sempre. 
Em 1992, se você quisesse assistir aos videoclipes mais populares, tudo que precisava fazer era sintonizar na Record. Eles tinham um programa vespertino chamado Kliptonita (apresentado por Serginho Caffé). 

Assim, dois anos antes eu não tinha nada. E agora, minha coleção crescia a olhos vistos, e eu ainda tinha oportunidade de todas as tardes gravar pelo menos um clipe novo
Certa vez, um daqueles amigos radialistas da minha mãe, conhecido pelo estranho nome de Jonacir, foi até a sorveteria. Ele estava ouvindo um diskman (que era como um walkman, só que com CD)!! Aquilo era muito hi-tech pra mim. 
Quando ele mostrou o CD que estava ouvindo, foi como se tivesse me dado choque. 
Era o BAD!

Então o CD tinha um visual muito mais moderno, e eu queria demais ter um daqueles, mas nem aparelho pra tocar CD eu tinha... então não resolveria muito o problema. Sem contar que, apesar de ser muito mais charmoso, o encarte do CD era bem menor que o LP. E isso me chateava. Fotos do Michael para mim era bom assim: bem, bem grandes. 
Eu tinha muitos posters, todos pendurados na parede, algo bem parecido com o que a minha filha tem hoje:

Parede do quarto da minha filha Bethânia, foto atual.

Aos poucos, fiquei bem conhecida no meu bairro. Eu já era meio popular por causa do estabelecimento comercial bem movimentado da minha mãe, agora quem passasse pela sorveteria, certamente se veria obrigada a ouvir duas ou três músicas do Michael, ou mais, dependendo do período de tempo que ficassem ali. 
Todos se acostumaram com isso. E se a pessoa fosse minha amiga, eventualmente acabaria gostando do Michael também. Foi o que aconteceu com a Ludmila Tozzi (hoje advogada, não sei se já é juiza). A mãe dela assinava a revista VEJA, e sempre saia alguma nota do Michael na página "Gente". 

Nós recortávamos e adicionávamos à pasta de fotos. 
Lembro que morria de ciume da Brooke Shields. Minha amiga Ludmila e eu carinhosamente a apelidamos de Bru Shilda (leia-se bruxilda, de bruxa). Ela era linda, mas nem por isso tinha o direito de sair de mãos dadas com Michael. Eu alimentei um ciume que me deixava quase louca. Não conseguia sair de casa sem levar minha pasta. E minha carteira. E meu boné. E minha camiseta. E quase todos os meus discos.

Sim, era exatamente desse jeito que funcionava. 
Quando não tinha outro jeito, eu trancava todas as coisas dentro do meu guarda-roupa, num espaço que batizei de "Santuário Michael Jackson".

Nessa mesma época eu conheci a Viviane Coelho, outra fã. Ela parecia gostar mesmo muito do Michael, o que para mim significava que eu poderia falar dele com ela o dia todo sem ter que me preocupar em parecer cansativa. Agora eu tinha várias amigas tão loucas quanto eu: Adelaide Félix, Ludmila Tozzi, Viviane Coelho. Já éramos quatro. Embora Ludmila fosse um pouco mais reservada, e a mãe dela jamais fosse permitir que ela saísse de casa comigo para procurar "conteúdo" na cidade, ela sempre guardava tudo que encontrava e entregava a mim. Ela sabia que eu cuidaria com o maior amor do mundo. Outra coisa que ela e sua família faziam muito bem era grava vídeos em VHS. Dito isso, acho que a essa altura eu já tinha um arsenal de vídeos do Michael: entrevistas, curtas, documentários, minisséries e muito mais.

A Viviane era quatro anos mais velha que eu, e isso preocupava um pouco a minha mãe. Eu só precisava estudar, garantir que minhas aulas de Inglês dessem resultado... E às vezes ajudava minha mãe na sorveteria: quando ela queria almoçar, ou antes de abrir, nós ajudávamos na limpeza das mesas, cadeiras, troca de água dos potinhos com conchas, etc. Era divertido, e crescer sabendo que sua mãe é dona do estabelecimento que era considerado o sonho de consumo de todas as crianças que eu conhecia só me deixava ainda mais orgulhosa.

Com Viviane por perto, eu parecia querer ganhar asas. Minhas saídas ficaram mais constantes e havia também o problema do uso do telefone de casa. A Viviane adorava ligar num número que falava coisas sobre nosso signo, e o custo as ligações era altíssimo. Eu comecei a sentir medo do momento em que meus pais recebessem a fatura, eles ficariam furiosos. Porém, também não sabia dizer não à ela. Era mais forte que eu. Contei das aulas de Inglês, né? Pois bem. Só que isso era eu. E meu curso era caríssimo para a época, então eu avançava a largos passos enquanto a maioria dos meus amigos continuava sem entender muita coisa. Inclusive a Viviane, cujo apelido era Vivi.

Ela ficou deslumbrada com meu álbum Dangerous tanto ou até mais do que eu. Também pudera, a capa tinha um visual simplesmente fantástico: você podia ficar horas analisando, ainda teria algum novo detalhe a ser observado. Quem desenhou a capa deve ter sido premiado em sua categoria, pois o trabalho ficou sensacional. O problema do álbum para Vivi, imediatamente percebi, era o fato de que os dois discos que compunham o álbum vinham encapados em papel impresso com todas as letras das músicas.

O que para mim parecia o paraíso, já que finalmente conseguiria entender o que Michael cantava, para Vivi era um pesadelo, porque ela nutria esperanças de que Michael estivesse dizendo seu nome em "Who Is It". O refrão da música diz:
"Who is it?
Is it a friend of mine?
Who is it?
Is it my brother?
Who is it?

No mundo de Vivi, Michael na verdade dizia:
"Oh Vivi!
Is it a friend of mine?
Oh Vivi!
Is it my brother?"

Foi quando tivemos nossa primeira discussão. Ela me achou metida demais porque eu podia dizer que Michael mencionava meu nome inúmeras vezes em "Smooth Criminal" e agora afirmava categoricamente e embasada em fatos que não poderiam ser contraditos que não havia a menor chance de Michael ter dito seu nome em qualquer música.

Quando todas as preocupações do seu mundo se resumem a estudar pra prova, trocar água dos potinhos de conchas e colecionar material do Michael, essas atividades passam a ser consideradas de fundamental importância. E eu tinha a responsabilidade de zelar por aquilo que havia consumido demais meu tempo para conseguir. Vivi estava se tornando um problema, eu via que em alguns momentos, coisas que eu tinha certeza de já ter adquirido por alguma razão não estavam mais no santuário. A coisa se agravou especialmente depois que recebemos a fatura do telefone. Fui proibida de vê-la e não achei isso tão ruim.

A vida seguia tranquilamente e de vez em quando eu explodia de alegria, como quando soube que Michael viria ao Brasil com a turnê Dangerous. Seria o evento dos sonhos. O grande momento. E aconteceu de tudo na passagem dele por aqui. Fechou o Playcenter para brincar com sua equipe, um dos carros de sua comitiva atropelou um jovem fã totalmente sem intenção e Michael surpreendeu a todos indo visitá-lo no hospital. Isso rendeu muita matéria para todos os canais de comunicação, eu só podia ficar feliz. Todo fã acha que conhece Michael como se ele fosse seu melhor amigo. Eu não era diferente. Para mim, Michael ter ido ao hospital só mostrava com maior nitidez a personalidade fantástica dele, a despeito de comentários maldosos que sempre pairavam, eu permanecia com a fé intacta. 

Foi mais ou menos nessa época que Jordy Chandler o acusou de abuso sexual e o mundo ficou chocado. Agora, quando eu saía atrás de material, só me deparava com notícias ruins. Felizmente, nenhum desses boatos foi capaz de tirar o brilho daqueles shows de Michael, e São Paulo encheu o estádio do Morumbi com nada menos que oitenta e cinco mil pessoas. Eu ouvi a transmissão do show pelo rádio, porque meus pais não quiseram me levar. Espero que eles tenham se arrependido amargamente, porque eu vou carregar esse arrependimento comigo pro resto da vida. 

Ver as manchetes dos jornais e revistas relatando momentos incríveis do show só me deixou ainda mais apaixonada. Durante essa passagem de Michael pelo Brasil, a Revista Contigo publicou uma matéria especial sobre ele. A capa da revista: Michael Jackson e Xuxa! Fim do mundo. Anos mais tarde a Xuxa diria numa entrevista que Michael a pediu em casamento. BS.


Capa da revista Contigo! de 1993 com Michael e Xuxa.

Quando minha mãe apareceu com essa revista em casa, eu tive um chilique. Meu pai me "agarrou" para que eu não voasse pra cima da revista a ponto de correr o risco de rasgá-la, de tanta emoção. Isso aconteceu há dezesseis anos, mas está tão fresco na minha memória que dá a sensação de ter sido ontem. Acho que é esse o efeito que ele causa nas pessoas. É tão marcante que é como se ficássemos congelados no tempo. 

Eu era uma fã muito prendada, estava feliz da vida porque, apesar de não ter ido ao show, tinha conseguido reunir tanto material que devo ter visto mais coisas do que quem estava lá de verdade. Tentava imaginar como seria estar no meio de tanta gente. Quem pode dizer que esteve num show de Michael Jackson certamente é muito sortudo. Especialmente os brasileiros. A pessoa com certeza ainda tem o ingresso do show, a camiseta que usou no dia... Pelo menos é assim com todas as pessoas com as quais já conversei a respeito. Estive na Áustria recentemente e conheci uma mulher muito simpática que trabalha na mesma empresa que eu, só que lá na matriz, em Teufenbach. Susanne Leitner é tão simpática que se eu pudesse, fazia ela se mudar para o Brasil. É muito normal ouvir que os europeus são pessoas frias. Tive muita sorte, porque os europeus que conheci e com os quais fiz amizade, todos eram são pessoas incríveis, deliciosas. Susanne esteve num show de Michael na Alemanha, e vi seus olhos mareados enquanto mostrava os pelos dos braços arrepiados, descrevendo o momento em que Michael entrava no palco e começava a cantar "Ja

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ah... A saudade.

O nome do post já estava salvo aqui, então devo avisar que não sei se ele já foi usado antes - fiquei com preguiça de verificar.

Fato é que me deu saudade daquelas noites iluminadas do centro xamânico. Só porque acho que estou precisando me entorpecer? Ou simplesmente sair desta realidade? Não sei, só sei que ouvir Oliver Shanti agora me deixou com sede de sonhos. Daquele tipo de sonho que te faz querer dormir mais e mais. 
Falta pouco para mais coisas boas acontecerem... e eu estou tentando não gritar de alegria -  e aqueles dias felizes... Parece que estou revivendo um pouco disso esses dias.

Não posso falar que não fui feliz, fui mais que isso.
Minha vida é de tantas fases... mas agora - exatamente agora - eu estou feliz.

Deixe-me respirar fundo hmmmmm... Que delicia. Quase osso sentir aquele aroma impregnante de ayawaska. Com incenso. Com cheiro de sonhos misturados com realidade, com sensação de flutuar. Com batimentos acelerados e imobilidade do corpo. E depois a necessidade de dançar. De pular. De chorar. E ser - continuar a ser - feliz.

Aprendi com todos os caminhos. 

E agora, que já sei o que é bom, como posso ficar sem?

Não é à toa que algumas pessoas preferem simplesmente não sonhar.
Vai que você gosta do que viu?!
E se gostar e não puder ter? Já imaginou a dor que essa frustração traria? 
Certas coisas eu prefiro simplesmente não levar a sério. E há outras que prefiro não "falar" por serem sérias demais. 








domingo, 23 de outubro de 2011

Releituras - Vamos perder tempo (2011 - 2013)

Pouco mais um ano atrás, escrevi o texto chamado “Vamos perder tempo”. Falava sobre as pessoas que passaram pela minha vida e o que representaram para mim em determinado momento. Resolvi fazer agora uma releitura, colocando meu ponto de vista atual acerca desses amores do passado. Não é assim, uma Brastemp, mas afinal de contas, é só a minha humilde opinião. 



Nada como mexer nas velharias... 
Acabei encontrando uma música composta por mim, que não é, assim, uma obra de arte, mas me traz lembranças muito boas... e o simples fato de ter sido gravada por uma "actual band", faz de mim uma pessoa muito orgulhosa.
Com tantos motivos para me sentir feliz, é claro que passa pela minha cabeça o motivo para ainda sentir com se algo continuasse fora do lugar. 
Tudo que vejo, tudo que diz respeito ao meu passado me enche de alegria e nostalgia. Tanta coisa mudou... tantas pessoas se afastaram, outras tantas se foram para sempre... Mas e eu? Como saber o que eu fui aos olhos deles todos? E, o mais importante: por que me importo?
AE - Eu continuo me importando, sim. Não com todos, obviamente. Até pensei ter esquecido alguns, só que não. Memória de peixe só pros momentos ruins, ainda.
E sim, eu espero um dia saber o que signifiquei aos olhos deles. Ilusão?
Vai saber.

É difícil admitir que eles significaram mais para mim do que eu para eles. Não todos, mas certamente algumas pessoas ficarão no posto delas dentro do meu coração enquanto este ainda bater.
AE - Parafraseando Raul, "que o mel é doce é coisa de que me nego a afirmar, mas que "parece doce" eu afirmo plenamente. 

Melancólico, né? Todos temos nossos vícios. 
Muito prazer, meu nome é Annie, esse é meu blog. E eu sou viciada em melancolia. E outras drogas.

Sou, sim, viciada em meu mundo, gosto de cada pedacinho dele, e, principalmente, da ilusão que ele me traz. Posso não ter feito as melhores escolhas, mas consigo lidar com isso sem querer me matar por não ter obtido sucesso em tudo que me propus a fazer. E mesmo quando me machuquei, consegui encontrar nisso um motivo para que a lembrança acabasse sendo boa.

Lembro que em 2003, tudo que eu queria do ano era poder encontrar o Rodrigo. A internet não era como hoje... Mas ela me bastou para chegar ao meu destino e eu tive o prazer de estar com o homem por quem era perdidamente apaixonada, mesmo em condições extremamente desfavoráveis.

Eu e Rodrigo em algum lugar de Curitiba, 2003







Era como a vida costumava ser: uma boa música, como "Joey", do Concrete Blonde, e uma lembrança para sempre. Este foi o Rodrigo... que hoje deve estar muito bem casado, morando no Japão outra vez. E não temos mais contato. Mas um dia, eu fui a "Solzinho" dele. E ele, por sua vez, foi o meu mundo. O lugar onde eu queria e precisava estar. 

AE - Tantas pessoas especiais cruzaram meu caminho, me proporcionaram momentos inesquecíveis, mas não há como comparar com o que eu senti quando vi o Rodrigo pela primeira (e única) vez. Pernas trêmulas, coração acelerado, mãos geladas. E a voz... Que quase sumiu. Eu era só alegria diante dos olhos rasgados com os quais tanto havia sonhado.
Mas, no mundo real, você não pode viver de situações perfeitas. Você pode, sim, ter o melhor delas; porém, terá sempre aquela coisinha que poderia não ter acontecido. E foi assim comigo. Passei tão mal, quase não conseguia ficar perto dele, precisei ir várias vezes ao banheiro, suava frio. Mas estava radiantemente feliz. Como nunca antes, ouso dizer. Só o Rodrigo causava esse efeito em mim, essa sensação de estar flutuando. Não só por ser completamente apaixonada por ele, mas também porque, além disso, éramos amigos, confidentes. Sabíamos o que rolava com o outro, gostávamos das mesmas coisas, éramos compatíveis em praticamente tudo. Melhores amigos pra ele, um grande amor pra mim.
Assim, quando nosso contato foi cortado, meu mundinho ficou vazio, cinza, sem graça. E demorei meses para me recuperar. Longos meses...
Com o tempo eu fui deixando as lembranças de lado, coloquei as fotos no baú, junto dos diários e do pequeno pedaço de papel no qual ele escreveu seu endereço meio às pressas... Só não tinha como escapar das músicas. Ano após ano, seu nome era mencionado segundos depois de começar alguma música que pudéssemos ter ouvido juntos na época. Concrete Blonde, Scorpions, Rita Coolidge, Skid Row, Steelheart, entre outras. Não imaginava, no entanto, que depois de quase dez anos sem absolutamente nenhum contato, o Rodrigo pudesse voltar (para o meu mundinho). E que essa volta dele fosse mexer tanto comigo.


De lá pra cá, sinceramente, não houve tantas mudanças assim.
Eu gostei demais desta minha primeira experiencia e talvez isso tenha me marcado de tal forma, que em alguma parte do meu cérebro canhoto ficou estabelecido que, daquele momento em diante, relacionamentos teriam que começar a muito quilômetros de distância. Assim, em minha doce ilusão, eu teria tempo para conhecer melhor a alma do rosto lindo do lado de lá.

Quando o Pedro surgiu, meio que foi a mesma coisa. A diferença é que ele estava bem mais perto. 
Uma situação inusitada, e anos depois, ainda tínhamos qualquer coisa prendendo um ao outro, até que entendemos que seria melhor não nos falarmos mais. E pode ser que tenha sido a melhor solução para uma relação tumultuada como foi a nossa. 
AE - Houve uma última tentativa. E a casa caiu quando descobrimos que meu amor eterno havia terminado e ele finalmente passou de príncipe encantado a sapo, bem ali, no meio da minha sala de TV, depois de uma noite relativamente frustrante. Imagine-se mirando a pessoa enquanto ela diz:
"O que aconteceu aqui? Onde você esteve até agora? Cadê você? Não te reconheço mais... Aliás, agora está claro, você não é mais apaixonada por mim."
Fato. Nosso ciclo se encerrou ali. Provei depois de quase três anos que amores podem morrer.


Por causa do Pedro, no entanto, eu deixei o Mark de lado e disso me arrependo amargamente.
E o Mark também foi através da internet, como os dois anteriores.
Só que o Mark ainda está em minha vida, de alguma forma. Mas, diferente dos outros todos, Mark quis que nosso momento de vida real fosse o mais próximo da perfeição possível e acho que ele conseguiu o que queria.

Vista do Terraço Itália - foto do Mark, 2008.


E a foto tirada por ele de dentro do badaladíssimo restaurante paulistano "Terraço Itália" não me deixa mentir. Foi uma noite inesquecível, quase de conto de fadas. E vivi o momento certa de que poderia não estar aqui no dia seguinte para contar... ou seja: 100% entregue.
Nos rendeu bons comentários pelos anos que se seguiram. E, ainda hoje, quando tocamos no assunto, é como se de alguma forma conseguíssemos reviver o passado. Nossa música? "Chasing Cars", do grupo Snow Patrol. 


Essa música é nossa, totalmente nossa.  
AE - E o Mark ficou mesmo em minha vida. Costumo brincar que, se um dia resolver ser mãe novamente, ele tem que ser o pai, por uma questão de gene.
Conheço o Mark há seis anos, já senti ódio mortal dele inúmeras vezes, mas na maior parte do tempo, só quero mesmo é que nossas vidas possam se cruzar mais e mais, porque até as brigas me fazem bem.
Mark - o tipo certo de cara errado.


Eu e Mark, 2008

Mesmo sem detalhar muito, está claro que vivi meus momentos da forma mais intensa possível, o que me faz voltar ao início da conversa... 

"Tudo que vejo, tudo que diz respeito ao meu passado me enche de alegria e nostalgia. Tanta coisa mudou... tantas pessoas se afastaram, outras tantas se foram para sempre... Mas e eu? Como saber o que eu fui aos olhos deles todos? E, o mais importante: por que me importo?
É difícil admitir que eles significaram mais para mim do que eu para eles. Não todos, mas certamente algumas pessoas ficarão no posto delas dentro do meu coração enquanto este ainda bater."
Não posso dizer que "passei por essa vida". Eu sei que vivi, me permiti isso e continuo a permitir.

Talvez isso me torne mais marcante. Não importa se é bom ou não. É inesquecível. 


As últimas três semanas foram muito interessantes.
Claro que, por respeito à privacidade alheia e à minha própria, não poderei falar muito sobre minha nova loucura, mas adianto que é das boas. Muito típica de mim e não fugindo às regras, virtual em toda sua magnitude. Uma nova experiencia, dentro do universo que já me é tão conhecido.
AE - acabou antes de começar, mas foi interessantíssimo.

E fora isso, continuo aguardando que o Michael volte, já estou com saudade, sei que precisamos colocar muita coisa em dia e não vejo a hora de acontecer! 

AE - Continuo encontrando o Michael uma ou duas vezes por ano. Semana que vem tem mais, oba!

Na última quinta-feira, me juntei à Gabi e ao Danyel para um jantar entre amigos. E foi outra noite memorável. Como todas as minhas empreitadas costumam ser. 

AE - Esse é outro encontro anual infalível. Estamos nos aprimorando - nas bebedeiras, piadas e gosto pra comida exótica. É isso que dá misturar alemão com turco e duas brasileiras insanas.


Sim, os tombos inevitavelmente são maiores. E esse é um risco que eu assumi anos atrás. Não me pergunte se vale a pena. Você já sabe a resposta. 


Eu, Danyel e Gabi durante a Itmex. Amigo alemão mais brasileiro 





Porque às vezes esquecer tudo é só o que precisamos, um pouco de tempo para perder só com as coisas e pessoas que amamos, só para reviver um vez mais o que nós já sentimos, só para colocar em prática a "vida". Num mundo onde todos estão sempre tão ocupados com dinheiro e progresso, é bom poder "perder tempo" com o que agora já não é mais tão trivial assim. 




Domingo extremamente preguiçoso, ensolarado e nostálgico.