quarta-feira, 15 de março de 2023

Jornada Íntima - capítulo 3

 

Embora estivesse feliz, não conseguia sorrir. Estava muito emocionada e também não era capaz de chorar. Eu sentia sua mão tocando meu rosto, sentia seu abraço me aquecendo, sentia sua respiração. E penso que talvez minha mente e corpo só conseguissem mesmo se concentrar na existência dele ali, ao meu lado. Eu não era capaz de mais nada além de "senti-lo". 

Adormecemos outra vez. 

Enquanto amigos, éramos as criaturas mais engraçadas e extrovertidas do planeta. Melhores amigos, confidentes. Sabíamos tudo um do outro. Líamos nossos pensamentos, tínhamos o hábito de um terminar a frase que o outro começou. Era fantástico ver nossa afinidade, exceto pelo Creedence - ele amava. Eu detestava.

Fora isso, era como se tivéssemos sido separados na maternidade. 

Era o que eu sabia a respeito de nós enquanto amigos. 

Mas acabara de conhecer o homem Monster, por trás do meu melhor amigo. Nem no passado cheguei tão longe. Quando sua esposa descobriu sobre nós, nada ainda havia acontecido. Estávamos juntos, mas mal nos tocamos. Agora era diferente, porque eu pude senti-lo de todas as formas. Pude experimentar beijá-lo sem restrição alguma. O que houve naquela madrugada a princípio me deixou aérea. Precisei de longas horas de sono e mais algumas horas consciente para que meus pés voltassem a tocar o chão.

Já eram mais de duas da tarde quando eu consegui abrir os olhos. Ele continuava ali do meu lado, estava assistindo TV. 

- Ah, você está viva? Que bom, eu já ia ligar pedindo socorro.

- Hmmm.. Será que estou viva, mesmo? Porque não pareço muito, não... 

- Olhando assim, você parece bem viva. Está com fome? Eu fiz café, espero que goste de café forte.

- Exatamente do que preciso agora. Gênio!

- Hei! Não precisa sair da cama, não. Eu pego o café pra você, dorminhoca.

Que amor, eu pensei. Indo buscar café para mim, trazendo o café na cama. Fiz alguma coisa bem feita ontem.

- Obrigada... - sorri.

- Me deve essa, dona Boo. 

Monster beijou minha bochecha e logo se posicionou na cama novamente. 

Eu queria falar sobre os eventos daquela madrugada, mas não arriscaria iniciar um assunto "tão delicado". Não conseguiria, entretanto, conter minha curiosidade por muito tempo, me intrigava ele ter ido até o fim comigo. Sempre fomos cautelosos. Em todos esses anos, nunca nos permitimos algo assim. Eu queria muito saber o que o fizera mudar de ideia. 

Suspirei e deitei a cabeça de volta no travesseiro de penas. A chuva era um convite a permanecer na cama. E de mais a mais, estávamos numa ilha - o que se há de fazer numa ilha, debaixo de chuva? Eu nem sabia nadar. À mim só restava mesmo comer, beber e dormir. 

A novidade é que ele estava ali comigo e nossas atividades se tornaram repentinamente mais interessantes. Minha cabeça rodava com os flashes da madrugada. Lembrava dele me encarando, de suas mãos segurando meu ombro, de como ele afundou o rosto em meu pescoço inúmeras vezes... Eu tinha que fechar os olhos. E quando abria, via seu rosto entretido com a televisão. 

Então era isso: eu parecia ter morrido. Morri e devia, provavelmente, estar no céu.

- Você está com muita preguiça, né?

- Hmmm... Acho que sim.

- Se estiver com fome...

- Não. E se estivesse, a preguiça ainda seria maior. 

- Que horror, Boo!

- Eu lembro que você sempre disse que cozinhava bem e sabia preparar peixe assado como ninguém. Então, eu posso continuar aqui na cama, termino de ver o filme pra você e, enquanto isso, você pode cozinhar pra gente. Sou uma excelente expectadora. 

- Que graça!

- Que graça! - repeti, já rindo. 

- Mas se quer saber, é isso mesmo que vou fazer. Vou deixar você de queixo caído com meu peixe assado.

- Hahahah... Isso aí, Monster! Manda ver!

Ele estava de muito bom humor, em outras palavras, eu teria seu sorriso, que era o melhor que havia nele pra se ver, o dia todo.

Resolvi tomar um banho enquanto ele dava início aos preparativos de nosso almoço. Continuava com os flashes.

“Meu deus, meu deus... ah, Monster...”

 

Já tive outros momentos inesquecíveis.

Enquanto a água quente caía sobre meus ombros, lembrei de alguns rostos que marcaram minha vida com momentos especiais. Eu fui muito amada. Era o que conseguia deduzir.

Estive em lugares incríveis, foram tantas demonstrações lindas. E não era justo que eu dissesse que embora tivesse experimentado momentos maravilhosos antes, aquele deveria ser o melhor – eu não podia dizer isso. Ainda.

Nossa madrugada foi perfeita. Nada de errado aconteceu. Mas, por outro lado, eu sabia que Monster não era, nunca foi e provavelmente nunca seria apaixonado por mim – neste ponto, nossos sentimentos eram incompatíveis. Não entendia suas razões para estarmos na ilha – era, obviamente, um presente de aniversário e tanto. E era preciso um par de loucos para criar um dia inesquecível. Mesmo nos meus sonhos, o que fiz de melhor, fiz com alguém cuja alma era tão insana quanto a minha.
Já que tudo se transformou em surpresa, não me restava mais nada a não ser deixar acontecer – como ele havia me pedido.

 

Se no final desses dias, tivéssemos mais uma história, e isso era bem provável, eu ficaria no mínimo feliz.

 

 

terça-feira, 14 de março de 2023

Jornada Íntima - capítulo 2

 

De repente senti medo. Lembrei do dia em que ele me contara sobre ser portador de uma doença incurável. Havíamos conversado inúmeras vezes a respeito, cheguei a acompanhar parte de seu tratamento, e ele fazia questão de sempre me garantir que teria muito tempo pela frente. Por alguma razão, aquela frase não soou bem.

 

- Não é nada do que você está imaginando. Conheço essa cabecinha maluca, mas não se preocupe com isso, está tudo bem. Só quero que esse fim de semana seja especial e inesquecível. Nunca viemos pra cá, não sei se um dia voltaremos. É simples – quero ter essas lembranças. Quero que você as tenha.

- Quer me presentear com lembranças?

- Não seria perfeito? Eu li seus livros, Boo. Tenho os dois. Então o que a faz pensar que não pode ter nada parecido com as histórias que criou?

- Ah!

- Não, não é isso! Você quer entender errado! Deixa de ser tão teimosa e aceita o que estou tentando te dar aqui, por favor!

- Sabe quantos anos eu passei desejando que algo assim pudesse acontecer?

- Faço ideia.

- E agora, o que o fez querer?

- Você vai entender, eu prometo. Mas não adianta tentar explicar nada agora. Vem, vamos sentar na areia, a noite está só começando e eu não quero perder nem um segundo dela.

- Não sei, não...

Ele me arrastou de volta pra areia e retomou a conversa:

 

- Então ficamos anos sem contato. Muitos anos.

 

Ao terminar esta curta frase, Monster virou sua taça de vinho de uma vez. Respirou fundo, erguendo a taça acima da cabeça e devolvendo-a em seguida na bandeja:

 

- Eu esqueci você quase completamente, sinto muito por isso.

 

- Nunca te disseram que se quiser ser honesto, tem que praticar o bom senso também,  Monster?

- Acha que eu me importo muito com isso, Boo? Já devo ter magoado você de todas as formas possíveis – estou tentando te contar o meu lado, assim quem sabe você resolva falar abertamente comigo também , não é mesmo?

 

- Ótimo, então vá em frente, estou curiosa pra saber sua parte da história.

 

- Pois bem. Eu quase te esqueci. Como quase esqueci outras pessoas. E nem por isso elas deixaram de ter sua importância na minha vida. Acho que todo mundo tem aquele estalo, aquela hora que chama por mudança. Isso aconteceu comigo, eu te contei sobre quando fui embora. Foi um período de muita solidão e me voltei totalmente ao meu relacionamento. Era tudo que tinha na época, e era tudo que eu acreditava precisar no momento. Tive que deixar muita coisa pra trás. Pessoas também. Infelizmente você estava nessa lista imensa.

 

- Conheço essa parte.

 

- Mas lembro do dia em que o Brian me contou sobre você ter me procurado.

 

- Então sabe que voltei ao nosso ponto de encontro nos anos seguintes. Não por acreditar que você pudesse miraculosamente aparecer, mas porque aquele jardim se tornou uma espécie de lugar sagrado para mim. Nunca deixei de procurar, eu via o que tivemos como algo realmente único.

 

- E foi, não há dúvida. Essa é a razão de estarmos aqui hoje.

 

- Para mim, Monster. Hoje eu sei que o que vivi aconteceu só na minha cabeça. Não vejo mais como um problema, nem algum tipo de lembrança dolorosa. Foi só algo que me marcou, pela intensidade talvez. Eu estava completamente apaixonada.

 

- Sempre pensei que estivesse me metendo em algo que já existia entre você e o Brian. Estávamos todos juntos quando nos conhecemos, eu saia que ele era apaixonado por você, e meio que me via como um intruso, nossa proximidade deixava o cara desolado, enciumado. Quando soube que você havia procurado por mim, fiquei até preocupado com a expressão dele. Senti que talvez pudesse ter traído meu melhor amigo. Foi o que deu a entender. A garota dele estava procurando por mim.

- Isso é ridículo! Nunca houve nada entre nós, nunca nem ao menos passou pela minha cabeça. Não sei de onde tiraram tamanha maluquice.

 

- Ele me fez crer que você era louca o suficiente para ir atrás de mim como da primeira vez. Fiquei assustado, confesso. Seria péssimo se você aparecesse do nada diante de mim e da minha nova vida. Eu teria que mandar você embora, e talvez não conseguisse. Fiquei aterrorizado com a ideia de tê-la por perto.

 

- Não sabia que você tinha medo de mim...

 

- Medo do que poderia acontecer se nos reencontrássemos. De repente, fico sabendo que você está bem viva e atrás de mim.

 

- O que foi que eu fiz pra causar tanto pânico assim em você?

 

- Esqueceu-se do dia em que fomos descobertos?

 

- No dia em que “eu” fui descoberta. Foram atrás de mim, e por pouco não me pegaram.

 

- Eu estava junto. Acha que ela foi atrás de você sozinha?

 

- Como assim?

 

- Boo! Acorda! Como você imagina que ela tenha conseguido o endereço de onde você estava? Telefone? Ela te ligou na minha frente!

- Que horror!

- Pois é. E seu cheiro estava em todos os lugares. Ela sabia que era perfume de mulher, sabia que você tinha estado lá. Você quase destruiu meu casamento, Boo.

- Eu sinto muito por isso. E por outro lado, não me lembro de ter te pedido pra me ir me encontrar.

- Você não pediu. Mas sua amiga me obrigou. E não me olhe com essa cara de espanto!

- Eu não entendo...

- A Leah me garantiu que eu destruiria você se não aparecesse.

- Então... Espera...

Fiquei atordoada. Por que Monster não iria me ver por vontade própria? Não éramos tão ligados? Ele não gostava tanto de mim? Não queria me ver? Como assim?

- Boo... Você tem que entender...

- Tenho. Você quer criar lembranças boas agora, mas está destruindo as melhores lembranças daquela época, é como se me dissesse que nada aconteceu de verdade. É como se eu tivesse vivido uma mentira.

- Foi tudo muito real.

- Só não teria acontecido se eu realmente não tivesse movido o mundo por sua causa. É isso, não é?

- Sim... Foi graças à sua insistência que as coisas aconteceram.

- Minha insistência...

- Não quer dizer que não tenha sido maravilhoso.

- O que foi maravilhoso? Você nem se lembrava.

Sentia que a cada frase, era como se um pedaço de toda aquela bela paisagem diante de mim se desfizesse. Tínhamos um cenário perfeito, um momento único e as verdades que surgiam me faziam querer vomitar. E não havia para onde fugir, nem pra quem ligar. Estávamos diante de nossa própria história, e ela nunca pareceu tão amarga.

Voltamos à estaca zero. Todas as nossas brigas dos últimos anos tinham sido pelo mesmo motivo: eu não aceitava que ele pudesse ter mudado tanto. E ele não aceitava que eu ainda fosse tão passional. Não era possível encontrar mais nosso ponto de equilibro – até que tivemos que nos afastar de vez, para não terminar nos odiando.

E sentia raiva de mim por não conseguir fazê-lo entender meu ponto de vista. Ele me deixava irada com sua necessidade de atenção. Monster era lindo, e sabia disso. Mas tinha que ouvir isso de todas as mulheres do mundo.

- Graças a você, tivemos aquele momento. Eu não estou dizendo que você errou em ter ido. Não estou dizendo que não gostei – isso seria a maior mentira do mundo. Só aconteceu na hora errada. Qualquer homem se sentiria honrado com tamanha demonstração de amor, Boo. Eu posso ser louco, mas não sou burro. Não pude te dar um dia perfeito como merecia, gostaria de ter feito mais por você, mas foi o momento errado.

- Já disse tantas vezes que me arrependo, mas continua parecendo mentira, eu sei que não posso sentir muito por ter sido corajosa.

- Deve se orgulhar da forma como abraça a vida, isso não é para muitos. Eu tenho orgulho de você. Pode estar zangada, irada. Pode ter sido traída. Se te pedissem, você voltaria atrás. Você cederia.

- E desde quando isso é motivo de orgulho? Soa mais como fraqueza.

- É preciso ser forte para ceder. É preciso uma força infinitamente maior para romper com a mágoa e aceitar um pedido de perdão, quando há tanta dor por trás. Eu não sei o quanto a machuquei. Sei que não quero experimentar essa dor nunca. Aprendi com suas explosões, com seu silêncio e especialmente, aprendi com sua distância. Você, mesmo ferida, ainda consegue esbanjar amor. Não conheci ninguém assim. Então, sim, eu tenho muito orgulho de você. E você devia ter também.

- Pra onde esse amor todo me levou, Monster? Toda essa pseudo-bondade? Eu estou longe dos meus ideais, longe de ser alguém emocionalmente tranquila. Estou só.

- Seu amor te trouxe pra uma ilha em pleno outono. E agora ele está te pedindo novamente perdão, e a chance de te dar algo digno de uma lembrança sua.

- Hahaha... Você tinha que terminar com uma piada! Tão típico!

- Exceto pelo fato de que não é nenhuma piada.

E outra vez, Monster se aproximou demais de mim, estava pronta para desviar de seus lábios, quando eles tocaram minha testa. Não tinha certeza se minha expressão era de alivio ou decepção. Queria lutar contra o beijo para ceder completamente depois, e ele beijou minha testa. É, acho que entra na lista de decepção.

- Deita aqui comigo, vamos olhar um pouco esse céu lindo.

Deitamos então sobre a areia, e realmente, o céu estava lindo, todo iluminado com as estrelas e a lua cheia subindo lentamente. Ficamos bem próximos, quase abraçados, mas em total silêncio e nenhum movimento.

Eu sabia que aquela noite ainda traria outras surpresas, mas não queria tentar prever nada. Tinha ao meu lado alguém que me fizera descobrir o significado da palavra “paciência”, então, era justo que eu tentasse aquietar meu coração escandaloso.

Tínhamos o som dos grilos, das ondas quebrando na areia, o som do vento balançando as árvores... E um novo som... Vindo dele. Chorando? Fiquei com medo de olhar, contive minha curiosidade e apenas o abracei sem dizer nada.

Ele respondeu ao abraço, pousou o braço direito sob meu pescoço e com a mão esquerda começou a acariciar meu braço, como quem tenta aquecer. Aquele silêncio, seguido do som do choro baixinho dele e o abraço ali, na areia, no meio da noite, fizeram nascer uma espécie de paz em mim.

Já não havia nada a perder, nada que não tivéssemos dito antes para machucar, ou afastar. Não havia outro motivo, senão nossa vontade – a nos manter inertes na areia. Não tínhamos que ser nada. Nem entender, ou aceitar coisa alguma. A nós, cabia somente deixar os minutos correrem – deixar o dia ir embora, deixar o mundo acontecer ao redor. Estávamos, enfim, criando uma lembrança. Algo para o resto de nossas vidas.

Um momento real, ainda que parecesse ser bonito e bom demais para ser verdade.

- Está frio aqui, Monster... Vamos entrar, estou congelando.

- Tudo bem.

Recolhemos as bandejas e seguimos para o chalé. Deixamos a pequena cozinha em ordem juntos, enquanto eu lavava as taças, ele deixava tudo enxuto e já arrumava lugar no armarinho para guardar os utensílios. Ele tinha muitos filmes no notebook, então aproveitamos para selecionar alguns que ambos ainda não tivessem assistido.

- Ah, Monster, vamos ver Django de novo!

- Mas já vimos esse filme tantas vezes...

- Eu gosto dele. Depois de Pulp Fiction, com certeza é meu favorito.

- Também gosto. Bom, então que seja Django.

Perdi a conta de quantos travesseiros havia naquela cama, quase não tinha espaço para nós. Finalmente, conseguimos nos posicionar confortavelmente e demos início à sessão cinema na ilha. Sentia um sono absurdo, e ao mesmo tempo, não queria perder nenhum segundo que fosse da companhia dele, embora soubesse que ele ainda estaria ali quando eu acordasse.

Depois de muito relutar, acabei adormecendo.

Acordei cerca de duas horas depois com o som da música que vinha do notebook. Sabe aquele momento em que a música externa penetra no sonho? Foi algo assim. Monster também havia adormecido, ainda estava com os óculos, que eu tirei da forma mais sutil que consegui. Ele se moveu com o meu toque, mas logo voltou ao sono profundo.

Sorri ao vê-lo ali, tão silencioso e pacífico.

Não sei dizer quantas vezes sonhei em viver novamente um momento como aquele, em que eu acordava ao seu lado, e para completar, ao som de “By your side”, da Sade.

 

“Eu quero uma foto dessa noite. Só a imagem mental não é suficiente. Ele nunca esteve tão lindo quanto agora – todo indefeso, dormindo esse sono pesado, tão tranquilo, tão lindo... Acho que alguém aqui está em apuros...”

 

Levantei da cama tentando não fazer barulho e caminhei em direção à mesa, queria meu cigarro e, se possível, outra taça de vinho.

Embora Monster não fumasse e não pudesse beber muito, ele não mostrava o menor incômodo com o fato de sua “sei-la-o-quê” fumar e beber muito mais que ele.

A porta rangeu mesmo com minha melhor tentativa de abrir sem incomodar o sono de Monster, e ele deu um pulo na cama, levantou assustado.

- Desculpe, desculpe! Eu só ia lá fora fumar, não queria acordá-lo! Por favor, me desculpe... E volte a dormir...

- Tudo bem, que horas são?

- Acho que quase cinco.

- Não vimos o filme todo...

- Não esperava que isso acontecesse, de qualquer forma. Monster, vou lá fora fumar, ok? Volto logo.

- Vou voltar a dormir, se não se importar.

- Faça isso, eu entro logo em seguida.

Às cinco da manhã, aquela ilha parecia mais uma geladeira gigante. O tempo estava fechando, o vento fazia bastante barulho entre as árvores e eu tive que me apressar com o cigarro para voltar logo e me aquecer debaixo dos edredons.

Corri para a cama com o queixo tremendo e as mãos congelando.

- Ai que frio, meu deus!

- Vem aqui, Boo. Mas não toca em mim, odeio mãos geladas – Monster riu.

Como eu tinha voltado do vento gelado, o corpo dele parecia muito quente, e foi quase impossível não notar que havia uma protuberância evidente sob suas calças.  Tentei disfarçar e mudar a posição do meu corpo a fim de não encostar-me naquela região, mas ele se posicionou ainda mais próximo de mim.

Senti que corria perigo – pela primeira vez.

- Monster?

- Hum?

- Você sempre acorda assim?

- Assim como?

- Assim...

- Ah, isso. É, sempre...

- Ok, vou voltar a dormir então.

- Vai?

- Não vou?

- Não sei...

Mas enquanto eu tentava fingir que nada estava acontecendo, senti sua respiração em minha nuca, e logo seus lábios estavam tocando meu pescoço, orelha, e eu não queria nem pensar em lutar contra o que quer que fosse. Ele virou meu rosto delicadamente, e eu terminei de virar meu corpo, nos posicionamos de frente um para o outro.

Toquei seu rosto, corri o dedo contornando seus lábios – ele sempre teve uma boca linda, o sorriso mais gostoso de se ver. Amava vê-lo em dias felizes, era uma imagem única. Nossas respirações pareciam sincronizadas. Aproximamo-nos mais, até que nossos lábios finalmente se tocassem, mas ainda não era um beijo. Eram só os lábios juntos – senti meu corpo pegando fogo, até que não pude mais conter o impulso e dei início a um longo e intenso beijo.

Foi como um transe. Uma experiência diferente, porque eu sempre imaginei como isso pudesse ser, e de repente, estava acontecendo – eu e ele, juntos, ele dentro de mim, nossos movimentos, o calor, o suor dele pingando em meu corpo, meu cabelo bagunçado, a mão dele tentando arrumar as madeixas que caiam sobre o rosto, o modo como ele me segurava pelos ombros, a força que eu fazia para garantir que ele não se soltasse de mim, minhas mãos inconstantes correndo suas costas, peito, segurando seu rosto, beijando sem acreditar que nada daquilo estivesse de fato acontecendo. Tudo parecia bom, o gosto dele, o movimento de sua língua, sua dança sobre mim, seu olhar me fitando enquanto eu chegava ao clímax. Eram muitas sensações e nenhuma habilidade para defini-las. Não se parecia com nada do que eu havia imaginado – era infinitamente melhor, mais gostoso, era como uma queda livre – muita adrenalina, o corpo experimentando um desejo incontrolável, a mente entrando em parafuso, foi louco – muito mais louco do que eu possa descrever.

 Entendi porque era tão bom estar com alguém por quem nutrimos algum tipo de sentimento especial.

Após ter passado tantos anos sozinha, escrevendo livros sobre pessoas felizes e suas histórias fantásticas, era como se eu tivesse me tornado uma personagem de minha própria criação.

"Aos 32, finalmente, depois de longos doze anos, meu deus, doze anos!"

        

 

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

Jornada íntima | capítulo 1

A jornada íntima 

 (música: Lana Del Rey - Angels Forever)

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar."
- José Saramago

 Fiz as malas ainda com frio na barriga. Maio – mês de chuva e frio, mês do meu aniversário. 
Havia chovido a noite toda, e aquela madrugada estava especialmente gelada. 
Tudo contribuía para alimentar meu medo de revisitar o que um dia foi o lugar mais feliz do mundo – ao menos para mim. 
Estava acariciando o pelo macio do meu cachorro enquanto tomava a terceira xícara de café da madrugada, ouvindo a programação de uma rádio local – "nossa música". Que conveniente, pensei.
 Momento perfeito para pensar se não dá tempo de desistir dessa loucura toda. 

 “É claro que não vou desistir agora. Não, porque afinal de contas, talvez eu não esteja fazendo esta viagem por ele. Talvez seja por nós. Por mim, pelo que senti, por tudo que vivi. Pelas lembranças e, acima de tudo, pelo que aprendi. Existe uma salvação, e eu a quero. Quero viver longos anos ao lado dos amores da minha vida.”

 Balancei a cabeça positivamente, como quem se certifica de ter tomado a decisão certa. De algum modo, era uma viagem inesperada e, até certo ponto, insana. Por que uma pessoa normal sairia do conforto do lar para estar sozinha num lugar praticamente deserto? Por que eu – especialmente eu – faria algo assim? Parecia comigo. E muito. 

Definitivamente, desistir não era mais uma possibilidade. Carreguei o carro e voltei para apagar as luzes e me despedir do Tom, meu cachorro. “Seja o que Deus quiser, eu não vou desistir.” Olhei novamente para todos os itens dentro da minha bolsa – não queria esquecer nenhum detalhe, nada que pudesse me fazer falta, afinal, desta vez, eu estaria sozinha. Entrei no carro devagar, respirando pausadamente.

 O coração, no entanto, não era capaz de conter a tensão – batia acelerado. Era difícil refazer aquele percurso, não se tratava de uma viagem comum, férias do trabalho, nem nada do gênero. Seis horas de estrada até meu destino final - um pequeno chalé numa ilha perto de Angra dos Reis. Quem ousaria uma viagem para o litoral no outono? Eu. Quem faria isso completamente só? Eu, novamente. 

Mas não sem uma boa razão – aquele deveria ser o desfecho de minha jornada pessoal – estar novamente na ilha para onde fui exatamente um ano antes em companhia do homem que transformara minha vida completamente. A princípio, esta primeira viagem deveria ser um reencontro de amigos, alguns dias tranquilos para selar de vez a paz após anos de conflito e silêncio. 

Eu não sabia, no entanto, que minha vida mudaria radicalmente a partir daqueles dias à beira mar. 
 Para entender o motivo do meu retorno à ilha, é preciso saber o que aconteceu quando estivemos lá pela primeira vez. Meu então melhor amigo e eu conversávamos como de costume pelos bate-papos das redes sociais. Havíamos brigado por motivos bobos inúmeras vezes, mas o tempo passou e ficou claro que precisávamos deixar certos fantasmas para trás. Uma nova consciência do bem que fazíamos um pelo outro cresceu e entendemos que era hora de passar novamente algum tempo juntos – como acontecera tantas vezes no passado.

 As ideias loucas sobre viagens sempre partiram dele, e esta não foi diferente.
 - Estive pesquisando alguns lugares, acho que encontrei o que parece ser o ideal para colocarmos todas as nossas pendências em dia.
 - Pendências, Michael? - Sim, temos várias pendências. E vamos resolver todas em nossa próxima viagem... Que deve acontecer... Vejamos... Na semana do seu aniversário, que tal? 
 - Para onde está pensando em me levar desta vez? 
 - Uma ilha. 
 - Uma ilha? Você sabe que em Maio faz frio, certo?
 - E daí? Eu também sei que você não gosta de tomar sol. Ilha e frio combinam bem com você. 
 - O tempo passa e você continua doido. - Sempre doido. Já tenho seus dados na memória, vou fazer a reserva do chalé. E não tem conversa. 
 - Que medo de você, Michael! 
 - Você ainda não viu nada. Vou desconectar. Te ligo para confirmar o dia de nossa partida. Arrume sua mala, minha cretina favorita. Nós vamos passear. 
 - Muito bem! Falamos em breve. 
 Sentia como se tivesse voltado no tempo depois daquela conversa sobre nosso destino. 
Havíamos feito tantas viagens assim no passado, e eu não tinha mais esperança de um dia voltar a viajar com ele. 
Nosso passado de longas e divertidas conversas, as incontáveis madrugadas que havíamos passado rindo de todas as coisas – até as mais insignificantes eram motivo para boas gargalhadas. Ter aquela magia de volta era como receber um presente. 
O melhor presente que se pode desejar. Como combinado, na semana do meu aniversário, parti para encontrá-lo em São Paulo. Iríamos com meu carro até Angra dos Reis, e, de lá, uma lancha nos levaria até a Ilha de Cataguases. 
 Observava atentamente cada um que entrava e saída do Paulista Center Hotel, até que, finalmente, o homem do sorriso mais lindo do mundo passou pela porta. Mochila nas costas, tênis, calça jeans surrada, moletom e uma mala pequena. 

 “Ele não mudou nada... Continua lindo demais!” 

 Ao vê-lo após longos dois anos de distância total, não pude conter a alegria, que rapidamente se transformou em lágrimas. Saí do estacionamento e corri em sua direção. 
 - Não acredito que nos encontramos outra vez! Faz tanto tempo! Que saudade desse sorriso! 
 - Vem cá, menina!
 Nunca soube descrever a sensação que me toma quando abraço alguém que amo. Especialmente naquele momento, seria impossível colocar em palavras a sensação tamanha de euforia que dominava cada parte de mim. Eu era pura felicidade, dos pés à cabeça.
 - Esse perfume! Eu conheço... Espera, não fala o nome... “Amor Amor”, acertei?
 - Em cheio! 
 Ah, ele se lembrava do meu perfume! Era um belo começo.
 - Onde está seu carro?
 - Deixei ali no estacionamento.
 - Então não vamos perder tempo... Temos que comer muita poeira até chegar ao nosso destino de outono.
 - Ainda não acredito que estamos indo pra uma ilha com esse frio... 
 - Relaxa, minha querida... Confie em mim, serão dias inesquecíveis. 
 - Eu não tenho dúvida disso. 
 Colocamos as coisas dele no carro e entreguei-lhe o molho de chaves. 
Eu não fazia ideia de como chegar à Angra dos Reis. Ele teria que ser o motorista da vez.
 - Vamos voar! 
 - Nem pense nisso! Trate de dirigir sem pressa. 
 - Ainda não perdeu o medo da velocidade, mocinha?
 - Nunca perderei. Nem de altura, nem d... 
 - Avião?
 - Jamais!
 Ele riu da forma como enfatizei o medo de voar. Lembranças do passado imediatamente vieram à tona. A chuva não parou, de modo que pude me tranquilizar – não seria possível “voar baixo” como ele tanto gostava de fazer. 
 Falamos sem parar, retomamos as últimas conversas que havíamos tido recentemente pelas redes sociais e assim o dia passou rapidamente e mal notei quando entramos em Angra dos Reis. - Estamos quase lá... 
 - Para onde vamos agora? 
 - Deixar seu carro no estacionamento da agência que loca os chalés na ilha. É perto daqui.
 - Agência... - Não achou que fôssemos de carro pra lá, achou? 
 - Como você é bobo! Eu não achei nada disso! Já estivemos em ilhas antes. 
 - Nenhuma como esta, te garanto. 
 - Ilha Bela, esqueceu? 
 - Não chega nem perto... Estou dizendo. 
 - O que tem de tão especial nessa ilha, afinal? 
 - Nós. E mais ninguém. É isso que ela tem de especial. 
 - Estará deserta mesmo? 
 - Com exceção do caseiro, imagino que sim. A ideia é essa. 
 - Não precisava ser tão deserta... 
 - Não quero distrações por lá. Vamos relaxar, curtir nossos dias juntos, falar abobrinhas, contar histórias tão velhas quanto guaraná de rolha... Tive que rir alto. 
 - Você e esse seu guaraná de rolha. 
Lembro quando ouvi essa expressão pela primeira vez. Ri por horas.
 - E você se acha a mais engraçada. 
 - Quem disse que eu era a mais engraçada foi você, monstrengo. 
 - Que medo dela, meu deus! - Boo! 
 - Você continua não valendo nada, cretina. 
 - Esse apelido é meu. - Meu. Você me deu.
 - Isso faz de você o cretino. 
 - Os dois, então. Cretina! 
 O check-in foi rápido, como imaginei que seria, já que não havia muita gente louca o suficiente para encarar o mar com aquele tempo fechado. Isso sem mencionar o frio que fazia naquela tarde. Embora odiasse a ideia, tentei encarar numa boa a curta viagem de lancha até a ilha. 
Mar, altura e velocidade não foram feitos para mim. Ignorei até onde pude, mas tive que gritar quando pareceu que a lancha ia virar. 
Os pingos gelados da garoa se misturavam aos do mar, causando uma sensação de frio ainda maior. O velhinho que nos levava apontou para a ilha, indicando que estávamos – até que enfim – chegando ao nosso destino. 
 - Precisava mesmo ser tão longe? 
 - Você tem quantos anos, mesmo? Setenta?
 - Vou ignorar este comentário. Odeio barcos.
 - Isso é uma lancha. Barco é outra coisa. 
 - É tudo a mesma coisa. Balança, não é seguro. 
 - Você está usando colete, velhota. Não vai morrer, não! Calma... 
 Enquanto Michael ria até perder o fôlego, eu segurava para não chorar de tanto medo. Felizmente, o simpático caseiro não demorou a encostar a lancha no píer. 
Ainda sentia medo, era fundo demais para mim naquele ponto, e a sensação de que meu corpo se lançaria ao mar involuntariamente não estava sendo de grande ajuda. Michael subiu ao píer antes de mim, e em seguida estendeu o braço para apoiar minha subida. 
Quase voei para a areia logo que pude tocar os pés na madeira envelhecida do pequeno píer. Mais risadas. 
 - Calma, minha filha! Preciso de ajuda com as malas, volta aqui! 
 - Não volto nem morta. Traga as malas até aqui que eu carrego.
 - Você é impossível! 
 O caseiro se juntou a Michael nas gargalhadas. Que ótimo. Agora eram dois idiotas rindo de uma situação tão delicada!
 - Você não tem medo de nada por acaso? 
 - Tenho medo de muita coisa, mas certamente não de um píer indefeso. 
 - Não vai parar de rir, mesmo? 
 - Parei, juro. 
 Não, ele não parou. Mal virei de costas e já pude ouvir o som estridente de sua gargalhada ensandecida. 
 - Tudo bem, pode rir. Não ligo. Vou descobri um medo seu qualquer dia desses e vou fazer você pagar por esse vexame todo que está me fazendo passar na frente do caseiro.
 - Vai, nada. Até descobrir um medo meu, eu já terei morrido de tanto rir de você. 
 - Palhaço. 
 - Bobona. 
 - E essa chuva, não para nunca? 
 - Não vamos acampar, mocinha. Que diferença faz se a chuva não parar? 
 - Vai ficar enclausurado no chalé, por acaso? 
 - Por mim, não há problemas. 
 Parei para ver sua expressão. Ele parecia falar sério, e aquilo era novo para mim. Não seria nossa primeira viagem juntos, nem a primeira vez que dividiríamos o mesmo espaço, mas, por alguma razão, aquela resposta soara diferente. 

 “Não começa com pensamentos idiotas, pelo amor de Deus...”

 - Acho que chegamos. 
 - Qual deles?
 - Estamos no número três. É aquele ali.
 Michael apontou para a direita. Caminhei até a entrada do simpático chalé de madeira. Parecia com os que eu costumava frequentar com os amigos em São Pedro, exceto pelo ar mais requintado. 
 O caseiro veio conosco até a porta de entrada do chalé e nos deu as boas-vindas à ilha. 
 - Aqui estão as malas. Se precisarem de mim, estarei na casinha ali da frente. É só chamar pelo Toninho. 
 Apesar de pequeno, o chalé tinha tudo que poderíamos precisar e parecia bastante limpo. 
A única cama de casal estava bem feita, com lençóis brancos e muitos travesseiros. 
Havia uma mesa redonda bem ao centro, uma pia pequena, armarinhos com panelas, pratos, taças, xícaras e copos. A geladeira já estava abastecida com comida fresca. 
 Um pequeno banheiro do lado esquerdo da cama, também extremamente limpo. 
Fiquei um pouco surpresa com os detalhes daquela casinha de madeira – lembrei-me de quando me mudei da casa dos meus pais para um apartamento no centro de Campinas. 
O chalé era infinitamente melhor estruturado. 
 - E essa única cama aqui? 
 - Algum problema em dividir a cama com um velho amigo? 
 - Se for apenas para “dividir” a cama, não.
 - Tem um monte de travesseiro aí, se sentir medo de mim à noite, é só fazer uma barricada e estará protegida.
 - Tenta de novo.
 - Tentar o quê? 
 - Outra piada. Essa não teve graça. 
 - Senso de humor de gente com alma idosa é um problema, mesmo. 
 - Essa também não foi boa. 
 - Estou brincando, mocinha. A ideia é relaxar. Vamos manter uma margem de segurança, não se preocupe. Não vou te agarrar enquanto dorme.
 Esse era o nosso normal. 
Um fazendo piada com o outro, sem medo de arriscar uma frase que pudesse soar grosseira. 
Nossos melhores momentos enquanto amigos foram sempre regados a muito humor ácido e pouco pudor. 
 Nesse clima amistoso, arrumamos nossas coisas e preparamos um lanche para o fim da primeira tarde na ilha. Os dois primeiros dias foram de chuva, então não havia muito a se fazer. 
Pusemos todos os assuntos em dia, e ainda assim, os assuntos brotavam e pareciam longe do fim. 
 Numa noite mais tranquila e sem chuva, decidimos tentar acender uma fogueira na areia com gravetos secos providencialmente encontrados dentro do armarinho debaixo da pia. 
Pareciam ter sido deixados lá para uma ocasião como aquela. 
Estendemos um lençol sobre a areia e preparamos uma espécie de piquenique ao luar. Bebíamos um vinho branco que ele havia comprado no sul do país e mordiscávamos cubinhos de queijo, sempre ao som das nossas bandas favoritas – o clima estava muito agradável, a atmosfera parecia contribuir de todas as formas para que nos sentíssemos muito à vontade. 
No meio das conversas acerca de todos os assuntos possíveis, terminamos justamente naquele que eu teria evitado enquanto pudesse – meus sentimentos por ele. 
Não mencionei ainda, mas tínhamos apelidos – apelidos especialmente criados por nós e para nosso uso privado: ele me chamava de Boo (porque eu era “assustadoramente engraçada”) e eu o apelidei carinhosamente de Monster (porque ele era meu monstro favorito). 
Foi fácil deixar nossos nomes de lado para nos tratar pelos apelidos, como fazíamos anos atrás. 
- Vamos lá, Boo... Não tem motivo para limitar as verdades... Acho que já passamos dessa fase. 
- É redundante, você sabe o que acontece comigo melhor que eu mesma! 
- Eu sei o que vejo, não faço ideia do que se passa aí dentro... Ele apontou para meu coração, e depois, para minha cabeça. 
- Sabe, sim, Monster. Sempre soube. 
- Você nunca me disse uma palavra, gostaria de ouvir o que acha que eu sei – mas ouvir de você. Não da sua melhor amiga, nem ler em seus textos. Quero ouvir de você! 
- Meu Deus! 
Virei a taça de vinho e tentei me levantar, mas fui segurada por ele antes que pudesse sair do lugar. 
- Olhando nos meus olhos, Boo. Por favor, fala. 
- Eu não me lembro de termos acordado nada que envolvesse uma confissão forçada, Monster! E por favor, pare de me encarar! Odeio quando faz isso. 
- Odeia? 
- Muito. 
E continuávamos mirando um ao outro. 
- Conta o que acontece com você e eu paro de encarar esses olhos enormes e lindos. 
- Está flertando comigo, Monster? 
- Você saberia se isso fosse um flerte. 
- Vindo de você, eu nunca sei de nada. Essa é a parte ruim da coisa toda: não sei o que esperar de você. Estou surpresa com essa sua pressão. Achei que não queria mais tocar nesse assunto. 
- Mudei de ideia. Agora eu quero. 
E não deu tempo de responder, porque ele me puxou para mais perto e calou minha boca com um beijo que me fez perder a noção de minha própria existência. Estávamos levemente embriagados, mas eu sabia que meu estado de consciência ainda estava intacto, então julguei que o dele também estivesse. Muita informação, de qualquer forma. Eu só consegui abrir os olhos alguns segundos depois que ele parou o beijo. 
 - Eu não lembrava mais como era, sabia que tinha gostado do seu beijo, mas não lembrava mais. Você manda bem, Boo. - Você é a pessoa mais idiota que eu já conheci. Definitivamente. 
- Desencana, por favor, ok? Estamos aqui, a noite está linda, tem uma lua imensa no céu, que tal apenas aproveitarmos tudo que temos hoje e esquecer do resto? Me conta seus segredos, Boo. 
Eu não vou sair de perto, não vou correr de você, quero que seja honesta comigo pelo menos uma vez. Já te pedi antes para ser franca quanto ao que sentia, e você preferiu sair de cena. 
Agora nem eu, nem você temos pra onde ir. Somos só nós aqui. 
- Você sabe de tudo. 
- Boo! 
- Monster, eu não consigo controlar minhas pernas agora. Eu não consigo falar direito porque parece que meu coração está escapando de mim. Não posso nem gritar porque minha voz está sumindo. Minhas mãos tremem, minhas bochechas estão queimando. 
Pronto! Desenhei com sol e nuvens. Está claro agora? 
- Não, não está! 
- Seu idiota, sai da minha frente!
 Empurrei seu corpo com as mãos fechadas e, num esforço visível, controlei minhas pernas a ponto de conseguir me movimentar sem tropeçar. 
E novamente, fui puxada por ele. Já sentia as lágrimas caindo, e se virasse o rosto, ele veria. 
Quando finalmente conseguiu me virar para sua direção, cobri o rosto com as mãos, e ele as puxou com força suficiente para conseguir me ver. 
Michael

- Você tem vergonha do que sente por mim? 
- É uma vergonha não ter o que fazer com isso. Não tenho vergonha do que sinto, apenas não há utilidade para esse sentimento. 
- Olha pra mim, Boo... Ergui os olhos molhados e não tentei mais impedir as lágrimas. 
- O que você quer? O que quer, Monster? 
- Quero ter um fim de semana perfeito com você, quero que tenhamos as melhores lembranças desses dias. As melhores, Boo. Sem reservas. Quero te conhecer, quero que me conheça. Quero ficar aqui com você até o último segundo do último momento. Só que não temos muito tempo, então eu gostaria que fôssemos honestos, que nos deixássemos levar, e que a natureza se encarregue do resto. Não somos mais crianças, eu sei o que quero agora, sei do que preciso. Por favor, Boo, esquece o mundo, esquece o medo, a dúvida. Pensa que agora estamos aqui – estamos juntos e não há nada entre nós. Não há passado, só existe o agora. O presente – nosso presente.
 - E depois? 
- Não tem depois, Boo. Só temos o agora. E eu preciso de você agora. Entendeu? A-go-ra!
 - O que quer dizer com isso, Monster? Do que está falando, exatamente?


(continua)...

terça-feira, 12 de abril de 2022

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Vida Real



Quantos eventos em tão pouco tempo!
Em 2013, eu tinha uma mente sonhadora, um coração carente, e escrevia longos textos enquanto ouvia toda a playlist da Lana Del Rey. Esse tempo ficou para trás, eu consegui tirar meu cara dos sonhos das linhas escritas e trouxe para a realidade. Na verdade, eu queria, sim, desesperadamente, viver um romance.
A vida real não combina com o que a gente lê nos romances, com o que a gente imagina. A vida real sequer tem a playlist para cada momento, como os meus textos tinham. Ali, tudo se encaixava.
Na vida real, os dias viraram meses, e depois viraram anos, e no meio disso tudo eu conheci dor, conheci o contraste entre o normal e o anormal. Meus pequenos prazeres de antes, com as amigas, se tornaram um tormento em minha vida. 

Depois de quatro anos, eu já não era nem dez por cento da pessoa de antes. Já sofria de ansiedade desde bem pequena, mas agora era diferente. Agora eu sentia falta de mim, pois já não me reconhecia mais.
A senhorita super treinada, viajada, culta, de repente se vê vazia, não consegue mais se prender à uma leitura, não viaja mais, não curte mais nem as playlist's que eram tão bem elaboradas para cada hora e sentimento.
Quando você se perde, o caminho de volta pode e, em geral, é, muito longo e tempestuoso. Um passeio com as amigas, uma conversa franca com a própria filha, um churrasco com a família... Tudo se torna difícil.
Dois anos depois do meu divórcio, eu consegui escrever um único texto, mas possuo cadernos e mais cadernos que usei para escrever durante toda aquela fase, só que o medo de voltar naqueles sentimentos me impede de abri-los. Gostaria, sim, de colocar tudo de forma a seguir uma linha do tempo - desde quando começou tudo bem, até quando eu era só um poço de lágrimas rezando para que tudo terminasse logo. 
Quem tenta se matar no dia do próprio casamento?
Depois de tornar o dia mais feliz da minha vida em pesadelo, eu só queria dormir e não acordar nunca mais.
Quando vi meu cachorro ser espancado, me coloquei na frente dele e minhas mãos sangraram, porque tomei os socos que ele ia tomar. 
Se ele se lembra? Não. Ou só diz que precisava "educar seu cachorro".
Os meus cães não eram acostumados com aquilo. Eu nunca fui tratada assim por nenhum homem que tenha feito parte em algum momento da minha vida.
Como tudo isso se desfaz?
Como você faz para esquecer disso e lembrar das outras coisas boas? 
Eu tenho dito ultimamente que minha memória já não é a mesma por conta de todos os remédios que tomo para ficar em pé durante o dia, e conseguir dormir durante a noite.
É sério - eu estou perdendo minhas lembranças e quero recordá-las pois me trariam alegria.
Trabalhei por seis meses no ano de 2019 com uma médica veterinária que era um amor de pessoa, e ela estava ciente de que eu tinha crise de ansiedade, crise de pânico, ela entendia.
Mas, cada animalzinho que eu via morrer, dilacerava meu coração. Eu fui ficando cada vez mais sensível às mortes, às eutanásias, e em determinado momento, minha medicação acabou. Eu ainda não tinha dinheiro pra comprar, e foi o filho dela quem notou que eu estava diferente, parecia tensa, parecia outra Annie, não aquela que ele estava acostumado a ver. 
Ela me convidou a participar de um coaching, se você o conhece, saiba que eu o desejo o melhor, mas não foi o melhor para mim naquele momento. 
Rogério Menossi. O curso dele, de dois dias, me deixou pior ainda. Quando ele disse: 
"Cada um tem aquilo que merece", eu morri, ali mesmo.
Não, não é possível. Eu não mereci nada daquilo. Não mereci nenhum soco, nenhum tapa, nenhuma crise de pânico, não mereci nenhum medo de morrer. Eu não queria me expor e voltar naquele passado. 
Essas palavras ecoaram por dias em minha mente, até que eu entrei numa verdadeira crise de ansiedade e tive que falar com meu médico - eu não conseguia voltar ao trabalho. Ele me deu dez dias para ficar em casa. Quando voltei, com toda a razão, ele decidiu me demitir.
Mas foi generosa, humana e eu sempre a amarei por ter me respeitado até o último momento e nunca ter deixado de cumprir com a sua lealdade. À ela, seus familiares e seu trabalho, eu desejo paz e sucesso.
E, não podia deixar de mencionar aqui, a pessoa que fez tudo isso acontecer: minha amiga, minha veterinária que me colocou lá dentro, Isabela Padovani. Eu tenho infinito respeito e valorizo demais seu trabalho, você sempre será o anjo da guarda dos meus filhos de quatro patas. Amo sua habilidade, compaixão, amizade, e amo a sua dedicação.
Perdi então o emprego. 
Voltei a fazer faxinas, porque não me sentia mais capaz de me apresentar em uma empresa tão perdida quanto estava.
Eu era excelente com comércio exterior, era excelente com outros idiomas, era excelente com o meu trabalho, mas cadê essa pessoa?
Ela tinha medo de entrevista.
Tinha medo de ser julgada.
Tinha medo de sofrer preconceito por ter estado fora do mercado de trabalho - na área que amava - há quase cinco anos.
Criei forças para criar uma lista de clientes para atender durante a semana.
Fiz da faxina o meu ganha pão, mas sentia profunda tristeza por ter deixado aquele currículo que nunca teve parada, de repente largado pelos cantos.
Eu via os grupos postando "vaga disso", "vaga daquilo", mas o meu currículo nunca era selecionado.
As pessoas querem te ajudar à maneira delas, mas nem sempre funciona.
Como vou explicar para a empresa que sou sensível? Que tenho traumas? Que lido com eles diariamente?
De todos os trabalhos que fiz, nenhum me causa arrependimento. Tive quem me estendeu a mão quando todo mundo se fechou em casa em quarentena e eu não pude trabalhar.
Fui chamada para free-lance em outra empresa, achei que era para fazer faxina, mas, para minha surpresa, era para trabalhar sentada mesmo ali na frente do computador, eu só precisava digitar bem e digitar rápido, não errar, e ir aprendendo.
Tudo começou realmente bem, eu sentia o carinho das pessoas por mim, mas meus problemas me trouxeram insegurança, medo de não ser aceita. E tenho tentado lidar - com os medos, frustrações e essa angústia de estar sempre a um passo de cometer um erro, um erro que eu não quero e não posso cometer.
Meu desejo é que isso passe. Que eu passe por cima disso, e consiga me superar e trazer meu verdadeiro eu de volta, para mostrar que não menti em nenhum momento sobre a minha vida profissional. 
Como eu era - Eu me busco todos os dias quando vou dormir e ao acordar. Às vezes não me encontro e vou em frente, sigo porque sei que desistir não está em mim. 
Sigo o mantra: "VAI, E SE DER MEDO, VAI COM MEDO MESMO"
A vida daqueles que sofrem com lembranças de traumas, daqueles que precisam se manter devidamente medicados para lidar com o dia a dia não é nada fácil.
Que o mundo veja as pessoas com mais amor, empatia.
Que o mundo entenda que queremos dar o nosso melhor.
Seja como for, seja onde for.

Aos que leram, muito obrigada.


quarta-feira, 21 de março de 2018

Masterchef, mastermind, master of the laughs

Primeiro, tomei um susto. Vim acompanhando nos últimos meses as postagens informativas de um GRANDE amigo a respeito do sócio dele que estava com câncer. 
"ELE SE FOI"
E me bateu uma culpa imensa por ter deixado que meu relacionamento conturbado me tirasse da companhia tão preciosa das pessoas que me fizeram tão feliz e completa ao longo dos anos. Os amigos, a família que soube (essa, sim) escolher.
Me permiti sair de mim, não me olhar mais no espelho, não refletir mais uma imagem agradável - mas não sei em que ponto isso tudo começou, ao menos, não exatamente.
Quando li esta curta e avassaladora frase, sabia que precisava ler todo o resto do texto que vinha logo a seguir "O QUE APRENDI NOS ÚLTIMOS MESES COM MEU AMIGO QUE PARTIU" (como de costume). Mas já com a decisão tomada: eu tinha que ver meu amigo.
Enquanto lia, meus olhos foram se inundando com as lágrimas. Precisei parar, sair da sala, secar cuidadosamente pra não virar um borrão só por causa do rímel, e novamente voltei os olhos para aquela verdade dilacerante.
Quero antes de qualquer coisa dizer que ao ler "sua doença, nossa cura" não se trata apenas de como o Bruno deixou sua marca na vida do meu amigo. Mas também sobre como isso me afetou e dividiu as águas de uma maneira linda e inesperada.
Ah, o Raphael! 
Eu ria até minha barriga doer, uma risada tão nossa, tão única. Sua experiência no mundo dos negócios me ensinou UMA LIÇÃO que talvez eu nunca tenha tido a oportunidade de mencionar: a resiliência é que é a chave para a vitória. Mas não sozinha. Ela e o foco precisam namorar sério, precisam realmente ter um relacionamento de amor, afeto, respeito mútuo e constante.
Ríamos muito no passado, mas eu sempre estava atenta a tudo que ele dizia. Acho que isso me manteve de certa forma "viva" para continuar a batalha. Para recomeçar do ZERO "sem reclamar".
O que agora me leva ao momento em que eu disse "preciso te dar um abraço", confesso que sem esperança dele dizer "claro, só se for agora".
Mas, mesmo cheio de compromissos, ele disse que SIM. 
E meu rosto imprimiu um sorriso imediato.
Passei o resto do dia contando os minutos para finalmente poder estar na companhia dele, até que a mensagem chegou: te pego às 20h30.
Nem deu tempo de nos olharmos, já estávamos rindo de novo. As mesmas piadas de antes de Cristo, e conseguíamos achar graça. Fui apresentada ao meu novo super amigo querido e em dez minutos, já tínhamos nossos próprios toques legais de melhores amigos.
Achei que ia tomar uma paulada, uma surra da verdade, mas a verdade é que a gente tomou tombos pra caramba nos últimos anos, e tomamos uma verdadeira surra de pau nos últimos meses, mas nós ainda estávamos bem vivos, resilientes e focados. E ainda éramos a piada um do outro, e do outro outro (não é um erro de português, não, é piada interna, mesmo).
Finalmente entendi que estava encerrando um ciclo. Com direito a um jantar digno de masterchef. Daqueles que você vai tomando vinho e contando histórias, depois já senta no chão, mesmo. Porque afinal de contas, a  casa é praticamente sua, tá em casa, tá tudo certo.
Nem vi a hora passar, só sei que me diverti do início ao fim, e mesmo contando as passagens mais tristes, não havia mais "peso" em nossa voz. 
A grande lição para mim sobre tudo isso: nossa amizade verdadeira, o distanciamento por minha culpa, nossas vidas pessoais e profissionais... É que temos já a nossa marca na vida do outro. E não tem como falar de mim sem falar dele. E acho que vice-versa. 
Encerro parafraseando seu próprio texto:
"Oscar é um prêmio para quem representa, mas você VIVEU, portanto ele é pequeno para você"
Graças aos céus, temos a oportunidade de VIVER e estar na vida daqueles que amamos e isso é tudo que mais importa no mundo. Não apenas fazer um papel, não apenas ter uma função, mas VIVER, de fato.
OBRIGADA por nunca, nunca ter desistido de mim.

P.S. Este é meu primeiro texto dos últimos DOIS ANOS. 




sexta-feira, 11 de março de 2016

Meu dia de Clarice Lispector


Madrugada fria. Eu, alta como uma pipa.
De  álcool, de tédio. Já tinha testado todas as posições que minha cama de casal pode oferecer, mas não era capaz de permanecer por mais de cinco minutos no mesmo lugar. Queria acreditar que havia adormecido, mas meus olhos se abriam estatelados ao som de insignificantes grilos.
“Droga, estou acordada...”, pensava, irritada.
Abri e fechei o laptop umas quinze vezes, até finalmente desistir de lutar com a vontade gigante de escrever.
Redigi umas cinco frases e parei.
“Banho.”
Desci as escadas meio cambaleante, concentrada para não tropeçar nos degraus. Cheguei, por fim, ao banheiro do andar de baixo.
Consegui ficar calma por longos dez minutos. E veio o frio. Demorou mais meia hora até que meu queixo parasse de tremer. A essa altura, eu já tinha tomado a segunda dose de whisky e o relógio marcava impressionantes 02:31 am.
Abri o laptop mais uma vez.
“Preciso de música nessa porcaria”.
Isso... “Canto para minha morte”, é o que eu preciso agora.
Raul Seixas, claro. Porque quando você não está no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, você certamente está assim, só que em outro cômodo da casa. E só o Raul entende dessa merda.
Ou talvez eu até pudesse ouvir “quando eu morri”.
Porque o vazio era tão, mas tão grande, que só faltava morrer, mesmo. Seria um alívio, porque pelo menos eu não teria que segurar o coração para não sair do corpo, tão acelerado que estava.
Um milhão de pensamentos, o coração acelerado, os olhos esbugalhados, o corpo detonado, o coração partido, as horas voando, os braços dormentes, o cansaço, a adrenalina, e o pior de tudo: o silêncio. Minha respiração ofegante me irritava demais.
Celular. Laptop. Celular. Laptop.
Cigarro, cigarro, cigarro. Até cansei de usar o isqueiro e decidi acender um cigarro com a ponta do outro. E aí cansei de fumar.
E nada de sono.
Celular. Raul me irritando. Silêncio.
“Ok, talvez um pouco de Sons of Anarchy”
Mas que merda, eu não conhecia os personagens, e eles falavam gíria demais. Irritante.
Nunca fui tão ignorada, sentia cheiro de coisa errada no ar, e meu faro sempre foi excelente. Pensava em tudo, nada fazia sentido. Eu estava horrível. Mas horrível por dentro. Só eu conseguiria me ver daquela forma. Ninguém mais. Mais cedo, havia ajudado duas grandes amigas. E antes disso, havia jantado com outra. Eu ri tanto, fiz planos, tomei cerveja, comi frango com páprica picante. Estava tudo bem. Até não estar mais.
E nada do que eu pensasse, nada do que eu dissesse, poderia reverter aquele quadro estanho que havia sido pintado.
Quem é que dorme assim? E isso é justo? Eu estava na minha. Vivendo a vida, fazendo minhas coisas. E tudo estava calmo.
Não tinha sido outro dia mesmo que combinei a viagem com Michael para Guatemala?  E o Rock in Rio? E o Helloween? E os homens todos que queriam estar comigo?  Por que tudo isso estava tão sem sentido? Por que entre sete bilhões de pessoas, tinha que ser justo alguém que não dá a menor importância pra minha existência? Haverá mais dias como este?
Eu vou mesmo ter que gastar um dia inteiro da minha vida entre lágrimas e músicas de merda que me deixam ainda pior?
Não quero ouvir música de feminista berrando como somos tão fortes. Eu não quero me sentir forte.
Quero ser fraca! Exijo poder exercer meu direito à fraqueza.
E como pode um ser humano ser leviano diante de sentimentos tão sinceros? Quem ousaria? Que espécie de pessoa podre faz isso?
Senti vontade de ligar pra uns três ou quatro carinhas para pedir perdão. Sério, eu queria ficar em paz com eles. Sempre haverá o fantasma do Sauro. E do Leandro, do Gustavo, do Mark. Eu parti o coração deles todos. E o pecado deles? Gostar demais de mim. Então é isso, eu mereço essa merda toda.
Amanheceu, me toquei de que não havia dormido. Peguei uma mensagem no celular. A mensagem que só confirmou o que eu já sabia, o que o universo sabia, mas me faltava aceitar. Às vezes você se importa “horrores”. E a outra pessoa simplesmente não se importa. E se você acha que isso é um castigo, o problema é seu.
E fiquei com vontade de cavar um buraco pra enfiar minha cabeça dentro. Fiquei com mais vontade do que nunca de morrer. Queria sair correndo, sair da frente do celular, estava me sentindo sem roupa na frente de quarenta alunos do primeiro ano do ensino médio. Sentia o mundo rindo de mim. Do quanto eu era patética. Era como se eu tivesse sido muito idiota por meses, e agora a idiotice estava exposta numa feira do ramo da tosquice.
Imaginei que um dia essa mensagem fosse chegar. Imaginei um diálogo, eu vi todas as cenas, mas aquela filha da puta de mensagem resolveu não seguir meu roteiro mental.
Deu tudo errado. E para minha tristeza, eu ainda estava ali. Como quem junta cacos de vidro de uma louça caríssimal, fiquei tentando encontrar desculpas para mim mesma. A única pessoa a lamber minhas feridas era eu.
Às oito da manhã, eu tinha que parecer jovem e bela. E pareci. Pra isso o homem criou o Engov.
E os chefes que carregam Engovs e oferecem os comprimidos para as assistentes de ressaca.
Ah, foda-se.
Que se dane tudo isso. Hoje tem mais. Você acha que estou com medo de não dormir? O homem criou a maquiagem. E ela é útil para as reuniões matinais – aquele momento em que você tem que parecer sóbria e saudável.
E viu Deus que o café era bom. Consideramos justa toda forma de cafeína. Todas as inas.
Deus abençoe essa merda toda, e que o tempo passe depressa. Ou não. Tanto faz. Já fui vasculhada, desrespeitada, quem sabe agora não role um “até nunca mais”?

É a deixa perfeita.