quarta-feira, 15 de março de 2023

Jornada Íntima - capítulo 4

 

(música: Lisa Marie Presley, Just a dream)


Nossa tarde foi divertidíssima.

Ele realmente me surpreendeu com seu prato: peixe assado com legumes. O cheiro e o sabor estavam fantásticos. Nunca fui muito fã de peixes, especialmente assados, mas tive que dar o braço a torcer – ele acertou em cheio. 


Percebi que durante a tarde, ele resolveu beber um pouco mais, estava visivelmente alterado, mas engraçado como jamais o vira ser. Falamos sobre tudo, exatamente como fazíamos nos bons tempos. 
Pessoas, músicas, filmes, livros, nossas noitadas, adolescência... Um assunto levava a outro e assim a tarde caía.

A chuva não deu trégua, mas mal percebemos a noite chegar. Havíamos passado muitos dias em horas de conversas intermináveis, mas havia algo de diferente agora. Era como se tivéssemos realmente entrado no universo um do outro, ele me disse na noite anterior que queria que eu o conhecesse, e a sensação que eu tinha era que, pela primeira vez, estávamos vendo um ao outro sem aquele escudo protetor – havíamos derrubado os muros que cercavam os pontos mais delicados de nossas histórias – vivemos por anos em mundo paralelos, e estávamos enfim partilhando esses mundos, nas palavras dele, sem restrições.


Em alguns momentos, eu me pegava imaginando a saudade que sentiria depois de terminados aqueles curtos dias na ilha. 
Passamos então ao meu primeiro livro – “Até o coração trair”.


- Sabe como eu conheci seu livro, Boo?


- Nem faço ideia. Mas aí está – gostaria muito de saber, já que ele não foi publicado fora do país.


- Certa vez, estava de férias por aqui e resolvi fazer compras. Acabei indo parar num shopping. Não sou muito chegado a livrarias, mas naquele dia eu resolvi entrar. Vi seu nome por acaso, mas pensei que fosse apenas coincidência, não estava procurando nenhum tema específico. Voltei para a prateleira onde havia visto o seu nome e então me dei conta que não era um engano: a Srta Boo realmente havia lançado um livro!


- Que emocionante, não?


- Não subestime seu potencial, Boo...

 
- Não é isso. É que, você sabe, trata-se de um romance. Não é o assunto mais interessante para um homem. 


- Se eu não te conhecesse, talvez. Mas fiquei muito curioso. E me surpreendeu a semelhança que acabei encontrando em alguns de seus personagens.


- Tenho que tirar a inspiração de algum lugar...


- Fato. Mas, conte-me... Você reuniu mesmo alguns perfis de pessoas que já passaram pela sua vida, não?


- Eu costumava escrever textos com assuntos separados. Toda vez que sentia a inspiração vir, parava o que estava fazendo para escrever, a maioria ficava guardada em pastinhas separadas por temas. Então percebi que era possível reunir algumas histórias – dai veio a ideia de, de repente, fazer isso ter um começo, meio e fim.

Deu certo, ao que parece. O livro não é um Best seller, mas significou muito para mim. Diria até que foi uma espécie de exorcismo.


- Como tirar as histórias da sua cabeça e sentir que estava se livrando delas?
- Eu tinha muitos pensamentos. Minha mente me fazia entrar em um universo totalmente paralelo e qualquer evento externo me obrigava a sempre escrever mais e mais. É como se a realidade me desse a ideia e imediatamente, ela se tornasse assunto para mais um capitulo. Vai entender...
- Acho isso fantástico. Aliás, sempre admirei sua habilidade com as palavras.
- É uma pena que não funcione tão bem assim na vida real... Coleciono fracassos em relacionamentos por falar sempre mais do que devo. 


- Você coleciona fracassos ou falta de tentativas?


- Quando sinto que corro perigo, me afasto. Todas as pessoas normais tendem a se proteger. O meu problema é o próximo passo.


- O próximo passo seria se apaixonar?


- Exatamente. É como se a parte mais importante do meu cérebro fosse desligada. Tive uma primeira experiência ruim, um relacionamento pra lá de conturbado que me ensinou a auto preservação acima de tudo. Você me viu enciumada – eu literalmente surto.
- Já vi você com ciúme, mas perto de pessoas que conheci, até que você me pareceu bastante calma.


- É que em geral estávamos relativamente distantes, pelo menos distantes o suficiente para que você não pudesse perceber o nível da loucura.


- Eu entendo, embora não consiga ser assim. Não digo que não sinta ciúme, mas acho que no meu caso, é mais fácil de resolver. 


- Você não é ciumento... Ao menos não que eu tenha conseguido perceber nesses anos todos.


- Senti ciúme inumas vezes. Apenas reajo de forma diferente. Nesse ponto, tenho certo controle. Prefiro o silêncio. Esse sentimento passa, basta saber esperar.


- Depois dessa primeira experiência, sempre que senti ciúme, tentei sair de perto. Eu criei uma espécie de armadura – se me sentisse “ameaçada”, ao invés de deixar o sentimento me dominar, eu me fechava em meu mundo e deixava a vida seguir por dias, até que sentisse que era capaz de uma conversa normal, de pessoas adultas.

Infelizmente, no nosso caso, agi mal em quase todas as ocasiões.


- Acho que sei do que está falando...


- Sabe, sim.


- O que te deixava tão enciumada naquelas situações, afinal?


- Se analisar, verá que eu não estava totalmente errada. Você atravessava uma fase delicada e eu estava vinte e quatro horas por dia à sua inteira disposição. Às vezes nem era preciso dizer, eu sabia que precisava agir, tinha que fazer seu astral melhorar, precisava te ver de bom humor e não descansava até que finalmente arrancasse um sorriso seu.


- Verdade, Boo... Você foi fantástica, fez a diferença naquela fase obscura.


- E então comecei a ver seu progresso. As coisas estavam voltando ao normal, você já não parecia mais tão triste, mas, ao mesmo tempo, conforme melhorava, também percebi que você queria atrair a atenção daquele bando de mulher. Quando eu via sua reação diante de todo aquele flerte, era como se algo ruim me atingisse de imediato. Não entendia porque você fazia questão de flertar de volta, e me irritava ainda mais quando eu tentava te repreender “amigavelmente” e você me dizia para relaxar. 


- Achava hilário como você ficava brava comigo. Mas era de se esperar. Hoje talvez eu não agisse da mesma forma, só que naquela época, precisei mesmo atrair a atenção do universo feminino por ter acabado de sair de uma relação de anos – eu não sabia se ainda conseguia. Descobri que sim, e descobri rápido. 


- Foi aí que comecei a estragar tudo. Parecia engraçado no começo, eu sei. Só que depois fiquei insuportável.


- Confesso que naquele ponto, eu não soube mais como lidar com você. Sentia falta da leveza da nossa convivência.


- Eu também sentia falta, não era a mesma coisa sem você. Combinamos de falar tudo abertamente, certo?


- Certíssimo, Boo.


- Pois bem, Monster. Meu mundo ficou vazio sem você por perto, e eu tinha total consciência de que só havíamos chegado àquele ponto por conta das minhas crises.


- Fez falta para mim também, embora eu ainda te acompanhasse à distância.


- Pelo site?


- Pelo site, pelas redes sociais... Eu era mais corajoso que você. E sempre acabava lendo algo que tinha algo a ver comigo. Você deixava mensagens lá que pareciam ter sido escritas para mim.


- E eram, mesmo.


- Eu sabia! 


- Essa se tornou a única forma de falar com você.


- A melhor parte é que isso tudo já passou. Nós estamos aqui, a noite está apenas começando e ainda temos cinco dias pela frente.


- Não te agradeci ainda...


- E não me agradeça. Ainda não terminou.


- Mas já está perfeito.


- Eu concordo. 


Conseguimos enfim, levar um assunto mais sério, que motivou nosso distanciamento, sem interrupção, e de forma tranquila. Parecia muito fácil agora que ele estava diante de mim.

Sem mencionar o fato de que ele me olhava o tempo todo como se estivesse lendo tudo que se passava dentro de mim. Parecia inútil dar uma versão diferente.


A noite chegou fria e chuvosa. Eu estava pouco me importando com o clima, até fiquei feliz por não podermos sair do chalé.
Deixamos novamente tudo em ordem na cozinha – parecia combinado: eu lavando, ele enxugando e guardando, sempre com música de fundo. Vez ou outra nós cantávamos trechos juntos. Tínhamos um set list bastante vasto, e ele trouxe um arsenal musical de fazer inveja. 


- E agora, parceiro? 


- E agora eu vou pro banho, parceira. Quer se juntar a mim?


Fiquei tímida de repente.


- Ah, acho que não é uma boa idéia... E eu já tomei banho, enfim...


- Já te vi sem roupa, Boo... Relaxa, é só um banho!


- Eu acho melhor você tomar esse banho sozinho hoje... Quem sabe até o fim da semana...


- Não sabe o que está perdendo.


- Faço ideia... Vai logo pro seu banho e pare de me dar ideia errada, Monster.


- Você é quem manda... 


Deixei que ele fosse pro banho sozinho, embora meus instintos me fizessem crer que aquela era a decisão mais idiota que eu podia ter tomado. Não me sentia à vontade, sempre falamos tanto a respeito de nossas experiências, fiquei com medo de ser comparada a alguma outra mulher que soubesse tomar um banho de forma mais “sexy” que eu – e além disso, eu era o desastre em vida. Tropeços, quedas, coisas quebradas e outros vexames faziam parte da minha vida.
Fui para a varanda do chalé para fumar.

 

Havia muito para pensar e aquele ainda era nosso segundo dia juntos. Nossa convivência pareceu tão natural, como se já tivéssemos feito coisas do gênero dezenas de vezes antes. E isso era estranho, definitivamente. 


“Um mundo tão grande, e onde é que viemos parar... Como ele pensou nisso?”


Aumentei o volume da música e aproveitei para encher uma taça com aquele vinho delicioso que tomamos durante o almoço.
Voltei para a varanda para mais um cigarro e me sentei numa das cadeiras que havia por lá. Não me cansava daquela paisagem: tudo em volta de nós era oceano – um mar de tranquilidade que atingia a alma. 


Estávamos longe do mundo, sem conexão com a internet e sem sinal no celular, não havia incômodo de espécie alguma. Éramos a distração um do outro e até aquele momento, bastava para nós.
Antes que caísse num cochilo, ouvi Monster me chamando para dentro.
- Boo... Está frio aí.


- Estou entrando...


Voltei calmamente e me deparei com Monster ainda de toalha, cabelo molhado e... Bem, aquele olhar que sempre me tirou o fôlego.
Meu coração imediatamente respondeu à visão com batimentos acelerados.
Ele veio em minha direção, tirou a taça da minha mão e quando percebi, já estávamos colados um no outro, num beijo outra vez intenso. Suas mãos agiam rápido para me despir, e nessa dança fizemos nosso caminho até a cama. Monster se posicionou sobre mim, e, com a boca colada em meu ouvido, pediu que eu esquecesse o mundo e me “concentrasse em nós”.


Invertemos a posição de nossos corpos e foi a minha vez de pedir a ele que me deixasse “brincar”.


Explorei cada centímetro de seu corpo com a língua e aos poucos fui aprendendo quais eram as áreas mais sensíveis – e me concentrei nelas.

Monster respondia com sussurros, enquanto suas mãos tentavam agarrar o que estivesse por perto.

Cheguei então ao seu sexo e fiquei longos minutos ali, e quanto mais os movimentos se repetiam, mais ele sussurrava e eu me perdia em excitação.


Subi lentamente entre beijos e pequenas lambidas em seu peito até chegar à boca – mais beijos, mordidas nos lábios, eu me dividia entre sua boca e seu pescoço, enquanto ele me abraçava com força. 
Invertemos novamente nossas posições e foi a vez dele de me percorrer. Mas minha sede era muita, então movi meu corpo de forma a termos acesso a ambos os sexos. 


Perfeita sincronia – nossas bocas e nossas respostas em igual prazer. 
Quando voltamos à posição original, ele parecia uma máquina em potência máxima me penetrando com força. Estávamos a um passo do clímax.

 
Enterrou seu rosto em meu pescoço e então voltou-se em direção do meu rosto para um beijo. E enquanto nos beijávamos, sentíamos os espasmos do clímax. Aos poucos, a urgência dava lugar à respiração ofegante e era possível sentir os corações de ambos num batimento frenético. 


Finalmente, Monster se deitou ao meu lado, posicionando o braço abaixo de meu pescoço. 

- O que foi isso, mulher?


- Eu te faço a mesma pergunta, querido...


Rimos daquela pergunta retórica. Estava claro que éramos compatíveis sexualmente. 


- Sabe... Na época mais complicada do meu tratamento, estávamos em contato direto e você costumava chegar toda animada contando como tinha sido sua noite. 


- Alta como uma pipa...


- Sim, e era o máximo. Você me fazia viajar com as histórias engraçadas que contava. Eu não podia fazer nada daquilo, mas a sua forma de contar me permitia entrar no meio daquela loucura toda, eu meio que vivia sua vida enquanto você me dava todos os detalhes. 
- Eu queria que você pudesse estar comigo naquelas noites de farra. 
- De certa forma, eu estava.


- Estava... Eu dava um jeito de você participar.


- Boo... Quando eu disse que meus sentimentos por você estavam intactos apesar de toda aquela confusão, era verdade. 


- Fico feliz em saber disso.

- Meu outro lado.

- Sim... Seu outro lado...A música parou e nós também ficamos em silêncio, apenas ouvindo a chuva cair do lado de fora. Se pudesse escolher um momento para eternizar, esse seria o ideal. 

Jornada Íntima - capítulo 3

 

Embora estivesse feliz, não conseguia sorrir. Estava muito emocionada e também não era capaz de chorar. Eu sentia sua mão tocando meu rosto, sentia seu abraço me aquecendo, sentia sua respiração. E penso que talvez minha mente e corpo só conseguissem mesmo se concentrar na existência dele ali, ao meu lado. Eu não era capaz de mais nada além de "senti-lo". 

Adormecemos outra vez. 

Enquanto amigos, éramos as criaturas mais engraçadas e extrovertidas do planeta. Melhores amigos, confidentes. Sabíamos tudo um do outro. Líamos nossos pensamentos, tínhamos o hábito de um terminar a frase que o outro começou. Era fantástico ver nossa afinidade, exceto pelo Creedence - ele amava. Eu detestava.

Fora isso, era como se tivéssemos sido separados na maternidade. 

Era o que eu sabia a respeito de nós enquanto amigos. 

Mas acabara de conhecer o homem Monster, por trás do meu melhor amigo. Nem no passado cheguei tão longe. Quando sua esposa descobriu sobre nós, nada ainda havia acontecido. Estávamos juntos, mas mal nos tocamos. Agora era diferente, porque eu pude senti-lo de todas as formas. Pude experimentar beijá-lo sem restrição alguma. O que houve naquela madrugada a princípio me deixou aérea. Precisei de longas horas de sono e mais algumas horas consciente para que meus pés voltassem a tocar o chão.

Já eram mais de duas da tarde quando eu consegui abrir os olhos. Ele continuava ali do meu lado, estava assistindo TV. 

- Ah, você está viva? Que bom, eu já ia ligar pedindo socorro.

- Hmmm.. Será que estou viva, mesmo? Porque não pareço muito, não... 

- Olhando assim, você parece bem viva. Está com fome? Eu fiz café, espero que goste de café forte.

- Exatamente do que preciso agora. Gênio!

- Hei! Não precisa sair da cama, não. Eu pego o café pra você, dorminhoca.

Que amor, eu pensei. Indo buscar café para mim, trazendo o café na cama. Fiz alguma coisa bem feita ontem.

- Obrigada... - sorri.

- Me deve essa, dona Boo. 

Monster beijou minha bochecha e logo se posicionou na cama novamente. 

Eu queria falar sobre os eventos daquela madrugada, mas não arriscaria iniciar um assunto "tão delicado". Não conseguiria, entretanto, conter minha curiosidade por muito tempo, me intrigava ele ter ido até o fim comigo. Sempre fomos cautelosos. Em todos esses anos, nunca nos permitimos algo assim. Eu queria muito saber o que o fizera mudar de ideia. 

Suspirei e deitei a cabeça de volta no travesseiro de penas. A chuva era um convite a permanecer na cama. E de mais a mais, estávamos numa ilha - o que se há de fazer numa ilha, debaixo de chuva? Eu nem sabia nadar. À mim só restava mesmo comer, beber e dormir. 

A novidade é que ele estava ali comigo e nossas atividades se tornaram repentinamente mais interessantes. Minha cabeça rodava com os flashes da madrugada. Lembrava dele me encarando, de suas mãos segurando meu ombro, de como ele afundou o rosto em meu pescoço inúmeras vezes... Eu tinha que fechar os olhos. E quando abria, via seu rosto entretido com a televisão. 

Então era isso: eu parecia ter morrido. Morri e devia, provavelmente, estar no céu.

- Você está com muita preguiça, né?

- Hmmm... Acho que sim.

- Se estiver com fome...

- Não. E se estivesse, a preguiça ainda seria maior. 

- Que horror, Boo!

- Eu lembro que você sempre disse que cozinhava bem e sabia preparar peixe assado como ninguém. Então, eu posso continuar aqui na cama, termino de ver o filme pra você e, enquanto isso, você pode cozinhar pra gente. Sou uma excelente expectadora. 

- Que graça!

- Que graça! - repeti, já rindo. 

- Mas se quer saber, é isso mesmo que vou fazer. Vou deixar você de queixo caído com meu peixe assado.

- Hahahah... Isso aí, Monster! Manda ver!

Ele estava de muito bom humor, em outras palavras, eu teria seu sorriso, que era o melhor que havia nele pra se ver, o dia todo.

Resolvi tomar um banho enquanto ele dava início aos preparativos de nosso almoço. Continuava com os flashes.

“Meu deus, meu deus... ah, Monster...”

 

Já tive outros momentos inesquecíveis.

Enquanto a água quente caía sobre meus ombros, lembrei de alguns rostos que marcaram minha vida com momentos especiais. Eu fui muito amada. Era o que conseguia deduzir.

Estive em lugares incríveis, foram tantas demonstrações lindas. E não era justo que eu dissesse que embora tivesse experimentado momentos maravilhosos antes, aquele deveria ser o melhor – eu não podia dizer isso. Ainda.

Nossa madrugada foi perfeita. Nada de errado aconteceu. Mas, por outro lado, eu sabia que Monster não era, nunca foi e provavelmente nunca seria apaixonado por mim – neste ponto, nossos sentimentos eram incompatíveis. Não entendia suas razões para estarmos na ilha – era, obviamente, um presente de aniversário e tanto. E era preciso um par de loucos para criar um dia inesquecível. Mesmo nos meus sonhos, o que fiz de melhor, fiz com alguém cuja alma era tão insana quanto a minha.
Já que tudo se transformou em surpresa, não me restava mais nada a não ser deixar acontecer – como ele havia me pedido.

 

Se no final desses dias, tivéssemos mais uma história, e isso era bem provável, eu ficaria no mínimo feliz.

 

 

terça-feira, 14 de março de 2023

Jornada Íntima - capítulo 2

 

De repente senti medo. Lembrei do dia em que ele me contara sobre ser portador de uma doença incurável. Havíamos conversado inúmeras vezes a respeito, cheguei a acompanhar parte de seu tratamento, e ele fazia questão de sempre me garantir que teria muito tempo pela frente. Por alguma razão, aquela frase não soou bem.

 

- Não é nada do que você está imaginando. Conheço essa cabecinha maluca, mas não se preocupe com isso, está tudo bem. Só quero que esse fim de semana seja especial e inesquecível. Nunca viemos pra cá, não sei se um dia voltaremos. É simples – quero ter essas lembranças. Quero que você as tenha.

- Quer me presentear com lembranças?

- Não seria perfeito? Eu li seus livros, Boo. Tenho os dois. Então o que a faz pensar que não pode ter nada parecido com as histórias que criou?

- Ah!

- Não, não é isso! Você quer entender errado! Deixa de ser tão teimosa e aceita o que estou tentando te dar aqui, por favor!

- Sabe quantos anos eu passei desejando que algo assim pudesse acontecer?

- Faço ideia.

- E agora, o que o fez querer?

- Você vai entender, eu prometo. Mas não adianta tentar explicar nada agora. Vem, vamos sentar na areia, a noite está só começando e eu não quero perder nem um segundo dela.

- Não sei, não...

Ele me arrastou de volta pra areia e retomou a conversa:

 

- Então ficamos anos sem contato. Muitos anos.

 

Ao terminar esta curta frase, Monster virou sua taça de vinho de uma vez. Respirou fundo, erguendo a taça acima da cabeça e devolvendo-a em seguida na bandeja:

 

- Eu esqueci você quase completamente, sinto muito por isso.

 

- Nunca te disseram que se quiser ser honesto, tem que praticar o bom senso também,  Monster?

- Acha que eu me importo muito com isso, Boo? Já devo ter magoado você de todas as formas possíveis – estou tentando te contar o meu lado, assim quem sabe você resolva falar abertamente comigo também , não é mesmo?

 

- Ótimo, então vá em frente, estou curiosa pra saber sua parte da história.

 

- Pois bem. Eu quase te esqueci. Como quase esqueci outras pessoas. E nem por isso elas deixaram de ter sua importância na minha vida. Acho que todo mundo tem aquele estalo, aquela hora que chama por mudança. Isso aconteceu comigo, eu te contei sobre quando fui embora. Foi um período de muita solidão e me voltei totalmente ao meu relacionamento. Era tudo que tinha na época, e era tudo que eu acreditava precisar no momento. Tive que deixar muita coisa pra trás. Pessoas também. Infelizmente você estava nessa lista imensa.

 

- Conheço essa parte.

 

- Mas lembro do dia em que o Brian me contou sobre você ter me procurado.

 

- Então sabe que voltei ao nosso ponto de encontro nos anos seguintes. Não por acreditar que você pudesse miraculosamente aparecer, mas porque aquele jardim se tornou uma espécie de lugar sagrado para mim. Nunca deixei de procurar, eu via o que tivemos como algo realmente único.

 

- E foi, não há dúvida. Essa é a razão de estarmos aqui hoje.

 

- Para mim, Monster. Hoje eu sei que o que vivi aconteceu só na minha cabeça. Não vejo mais como um problema, nem algum tipo de lembrança dolorosa. Foi só algo que me marcou, pela intensidade talvez. Eu estava completamente apaixonada.

 

- Sempre pensei que estivesse me metendo em algo que já existia entre você e o Brian. Estávamos todos juntos quando nos conhecemos, eu saia que ele era apaixonado por você, e meio que me via como um intruso, nossa proximidade deixava o cara desolado, enciumado. Quando soube que você havia procurado por mim, fiquei até preocupado com a expressão dele. Senti que talvez pudesse ter traído meu melhor amigo. Foi o que deu a entender. A garota dele estava procurando por mim.

- Isso é ridículo! Nunca houve nada entre nós, nunca nem ao menos passou pela minha cabeça. Não sei de onde tiraram tamanha maluquice.

 

- Ele me fez crer que você era louca o suficiente para ir atrás de mim como da primeira vez. Fiquei assustado, confesso. Seria péssimo se você aparecesse do nada diante de mim e da minha nova vida. Eu teria que mandar você embora, e talvez não conseguisse. Fiquei aterrorizado com a ideia de tê-la por perto.

 

- Não sabia que você tinha medo de mim...

 

- Medo do que poderia acontecer se nos reencontrássemos. De repente, fico sabendo que você está bem viva e atrás de mim.

 

- O que foi que eu fiz pra causar tanto pânico assim em você?

 

- Esqueceu-se do dia em que fomos descobertos?

 

- No dia em que “eu” fui descoberta. Foram atrás de mim, e por pouco não me pegaram.

 

- Eu estava junto. Acha que ela foi atrás de você sozinha?

 

- Como assim?

 

- Boo! Acorda! Como você imagina que ela tenha conseguido o endereço de onde você estava? Telefone? Ela te ligou na minha frente!

- Que horror!

- Pois é. E seu cheiro estava em todos os lugares. Ela sabia que era perfume de mulher, sabia que você tinha estado lá. Você quase destruiu meu casamento, Boo.

- Eu sinto muito por isso. E por outro lado, não me lembro de ter te pedido pra me ir me encontrar.

- Você não pediu. Mas sua amiga me obrigou. E não me olhe com essa cara de espanto!

- Eu não entendo...

- A Leah me garantiu que eu destruiria você se não aparecesse.

- Então... Espera...

Fiquei atordoada. Por que Monster não iria me ver por vontade própria? Não éramos tão ligados? Ele não gostava tanto de mim? Não queria me ver? Como assim?

- Boo... Você tem que entender...

- Tenho. Você quer criar lembranças boas agora, mas está destruindo as melhores lembranças daquela época, é como se me dissesse que nada aconteceu de verdade. É como se eu tivesse vivido uma mentira.

- Foi tudo muito real.

- Só não teria acontecido se eu realmente não tivesse movido o mundo por sua causa. É isso, não é?

- Sim... Foi graças à sua insistência que as coisas aconteceram.

- Minha insistência...

- Não quer dizer que não tenha sido maravilhoso.

- O que foi maravilhoso? Você nem se lembrava.

Sentia que a cada frase, era como se um pedaço de toda aquela bela paisagem diante de mim se desfizesse. Tínhamos um cenário perfeito, um momento único e as verdades que surgiam me faziam querer vomitar. E não havia para onde fugir, nem pra quem ligar. Estávamos diante de nossa própria história, e ela nunca pareceu tão amarga.

Voltamos à estaca zero. Todas as nossas brigas dos últimos anos tinham sido pelo mesmo motivo: eu não aceitava que ele pudesse ter mudado tanto. E ele não aceitava que eu ainda fosse tão passional. Não era possível encontrar mais nosso ponto de equilibro – até que tivemos que nos afastar de vez, para não terminar nos odiando.

E sentia raiva de mim por não conseguir fazê-lo entender meu ponto de vista. Ele me deixava irada com sua necessidade de atenção. Monster era lindo, e sabia disso. Mas tinha que ouvir isso de todas as mulheres do mundo.

- Graças a você, tivemos aquele momento. Eu não estou dizendo que você errou em ter ido. Não estou dizendo que não gostei – isso seria a maior mentira do mundo. Só aconteceu na hora errada. Qualquer homem se sentiria honrado com tamanha demonstração de amor, Boo. Eu posso ser louco, mas não sou burro. Não pude te dar um dia perfeito como merecia, gostaria de ter feito mais por você, mas foi o momento errado.

- Já disse tantas vezes que me arrependo, mas continua parecendo mentira, eu sei que não posso sentir muito por ter sido corajosa.

- Deve se orgulhar da forma como abraça a vida, isso não é para muitos. Eu tenho orgulho de você. Pode estar zangada, irada. Pode ter sido traída. Se te pedissem, você voltaria atrás. Você cederia.

- E desde quando isso é motivo de orgulho? Soa mais como fraqueza.

- É preciso ser forte para ceder. É preciso uma força infinitamente maior para romper com a mágoa e aceitar um pedido de perdão, quando há tanta dor por trás. Eu não sei o quanto a machuquei. Sei que não quero experimentar essa dor nunca. Aprendi com suas explosões, com seu silêncio e especialmente, aprendi com sua distância. Você, mesmo ferida, ainda consegue esbanjar amor. Não conheci ninguém assim. Então, sim, eu tenho muito orgulho de você. E você devia ter também.

- Pra onde esse amor todo me levou, Monster? Toda essa pseudo-bondade? Eu estou longe dos meus ideais, longe de ser alguém emocionalmente tranquila. Estou só.

- Seu amor te trouxe pra uma ilha em pleno outono. E agora ele está te pedindo novamente perdão, e a chance de te dar algo digno de uma lembrança sua.

- Hahaha... Você tinha que terminar com uma piada! Tão típico!

- Exceto pelo fato de que não é nenhuma piada.

E outra vez, Monster se aproximou demais de mim, estava pronta para desviar de seus lábios, quando eles tocaram minha testa. Não tinha certeza se minha expressão era de alivio ou decepção. Queria lutar contra o beijo para ceder completamente depois, e ele beijou minha testa. É, acho que entra na lista de decepção.

- Deita aqui comigo, vamos olhar um pouco esse céu lindo.

Deitamos então sobre a areia, e realmente, o céu estava lindo, todo iluminado com as estrelas e a lua cheia subindo lentamente. Ficamos bem próximos, quase abraçados, mas em total silêncio e nenhum movimento.

Eu sabia que aquela noite ainda traria outras surpresas, mas não queria tentar prever nada. Tinha ao meu lado alguém que me fizera descobrir o significado da palavra “paciência”, então, era justo que eu tentasse aquietar meu coração escandaloso.

Tínhamos o som dos grilos, das ondas quebrando na areia, o som do vento balançando as árvores... E um novo som... Vindo dele. Chorando? Fiquei com medo de olhar, contive minha curiosidade e apenas o abracei sem dizer nada.

Ele respondeu ao abraço, pousou o braço direito sob meu pescoço e com a mão esquerda começou a acariciar meu braço, como quem tenta aquecer. Aquele silêncio, seguido do som do choro baixinho dele e o abraço ali, na areia, no meio da noite, fizeram nascer uma espécie de paz em mim.

Já não havia nada a perder, nada que não tivéssemos dito antes para machucar, ou afastar. Não havia outro motivo, senão nossa vontade – a nos manter inertes na areia. Não tínhamos que ser nada. Nem entender, ou aceitar coisa alguma. A nós, cabia somente deixar os minutos correrem – deixar o dia ir embora, deixar o mundo acontecer ao redor. Estávamos, enfim, criando uma lembrança. Algo para o resto de nossas vidas.

Um momento real, ainda que parecesse ser bonito e bom demais para ser verdade.

- Está frio aqui, Monster... Vamos entrar, estou congelando.

- Tudo bem.

Recolhemos as bandejas e seguimos para o chalé. Deixamos a pequena cozinha em ordem juntos, enquanto eu lavava as taças, ele deixava tudo enxuto e já arrumava lugar no armarinho para guardar os utensílios. Ele tinha muitos filmes no notebook, então aproveitamos para selecionar alguns que ambos ainda não tivessem assistido.

- Ah, Monster, vamos ver Django de novo!

- Mas já vimos esse filme tantas vezes...

- Eu gosto dele. Depois de Pulp Fiction, com certeza é meu favorito.

- Também gosto. Bom, então que seja Django.

Perdi a conta de quantos travesseiros havia naquela cama, quase não tinha espaço para nós. Finalmente, conseguimos nos posicionar confortavelmente e demos início à sessão cinema na ilha. Sentia um sono absurdo, e ao mesmo tempo, não queria perder nenhum segundo que fosse da companhia dele, embora soubesse que ele ainda estaria ali quando eu acordasse.

Depois de muito relutar, acabei adormecendo.

Acordei cerca de duas horas depois com o som da música que vinha do notebook. Sabe aquele momento em que a música externa penetra no sonho? Foi algo assim. Monster também havia adormecido, ainda estava com os óculos, que eu tirei da forma mais sutil que consegui. Ele se moveu com o meu toque, mas logo voltou ao sono profundo.

Sorri ao vê-lo ali, tão silencioso e pacífico.

Não sei dizer quantas vezes sonhei em viver novamente um momento como aquele, em que eu acordava ao seu lado, e para completar, ao som de “By your side”, da Sade.

 

“Eu quero uma foto dessa noite. Só a imagem mental não é suficiente. Ele nunca esteve tão lindo quanto agora – todo indefeso, dormindo esse sono pesado, tão tranquilo, tão lindo... Acho que alguém aqui está em apuros...”

 

Levantei da cama tentando não fazer barulho e caminhei em direção à mesa, queria meu cigarro e, se possível, outra taça de vinho.

Embora Monster não fumasse e não pudesse beber muito, ele não mostrava o menor incômodo com o fato de sua “sei-la-o-quê” fumar e beber muito mais que ele.

A porta rangeu mesmo com minha melhor tentativa de abrir sem incomodar o sono de Monster, e ele deu um pulo na cama, levantou assustado.

- Desculpe, desculpe! Eu só ia lá fora fumar, não queria acordá-lo! Por favor, me desculpe... E volte a dormir...

- Tudo bem, que horas são?

- Acho que quase cinco.

- Não vimos o filme todo...

- Não esperava que isso acontecesse, de qualquer forma. Monster, vou lá fora fumar, ok? Volto logo.

- Vou voltar a dormir, se não se importar.

- Faça isso, eu entro logo em seguida.

Às cinco da manhã, aquela ilha parecia mais uma geladeira gigante. O tempo estava fechando, o vento fazia bastante barulho entre as árvores e eu tive que me apressar com o cigarro para voltar logo e me aquecer debaixo dos edredons.

Corri para a cama com o queixo tremendo e as mãos congelando.

- Ai que frio, meu deus!

- Vem aqui, Boo. Mas não toca em mim, odeio mãos geladas – Monster riu.

Como eu tinha voltado do vento gelado, o corpo dele parecia muito quente, e foi quase impossível não notar que havia uma protuberância evidente sob suas calças.  Tentei disfarçar e mudar a posição do meu corpo a fim de não encostar-me naquela região, mas ele se posicionou ainda mais próximo de mim.

Senti que corria perigo – pela primeira vez.

- Monster?

- Hum?

- Você sempre acorda assim?

- Assim como?

- Assim...

- Ah, isso. É, sempre...

- Ok, vou voltar a dormir então.

- Vai?

- Não vou?

- Não sei...

Mas enquanto eu tentava fingir que nada estava acontecendo, senti sua respiração em minha nuca, e logo seus lábios estavam tocando meu pescoço, orelha, e eu não queria nem pensar em lutar contra o que quer que fosse. Ele virou meu rosto delicadamente, e eu terminei de virar meu corpo, nos posicionamos de frente um para o outro.

Toquei seu rosto, corri o dedo contornando seus lábios – ele sempre teve uma boca linda, o sorriso mais gostoso de se ver. Amava vê-lo em dias felizes, era uma imagem única. Nossas respirações pareciam sincronizadas. Aproximamo-nos mais, até que nossos lábios finalmente se tocassem, mas ainda não era um beijo. Eram só os lábios juntos – senti meu corpo pegando fogo, até que não pude mais conter o impulso e dei início a um longo e intenso beijo.

Foi como um transe. Uma experiência diferente, porque eu sempre imaginei como isso pudesse ser, e de repente, estava acontecendo – eu e ele, juntos, ele dentro de mim, nossos movimentos, o calor, o suor dele pingando em meu corpo, meu cabelo bagunçado, a mão dele tentando arrumar as madeixas que caiam sobre o rosto, o modo como ele me segurava pelos ombros, a força que eu fazia para garantir que ele não se soltasse de mim, minhas mãos inconstantes correndo suas costas, peito, segurando seu rosto, beijando sem acreditar que nada daquilo estivesse de fato acontecendo. Tudo parecia bom, o gosto dele, o movimento de sua língua, sua dança sobre mim, seu olhar me fitando enquanto eu chegava ao clímax. Eram muitas sensações e nenhuma habilidade para defini-las. Não se parecia com nada do que eu havia imaginado – era infinitamente melhor, mais gostoso, era como uma queda livre – muita adrenalina, o corpo experimentando um desejo incontrolável, a mente entrando em parafuso, foi louco – muito mais louco do que eu possa descrever.

 Entendi porque era tão bom estar com alguém por quem nutrimos algum tipo de sentimento especial.

Após ter passado tantos anos sozinha, escrevendo livros sobre pessoas felizes e suas histórias fantásticas, era como se eu tivesse me tornado uma personagem de minha própria criação.

"Aos 32, finalmente, depois de longos doze anos, meu deus, doze anos!"

        

 

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

Jornada íntima | capítulo 1

A jornada íntima 

 (música: Lana Del Rey - Angels Forever)

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar."
- José Saramago

 Fiz as malas ainda com frio na barriga. Maio – mês de chuva e frio, mês do meu aniversário. 
Havia chovido a noite toda, e aquela madrugada estava especialmente gelada. 
Tudo contribuía para alimentar meu medo de revisitar o que um dia foi o lugar mais feliz do mundo – ao menos para mim. 
Estava acariciando o pelo macio do meu cachorro enquanto tomava a terceira xícara de café da madrugada, ouvindo a programação de uma rádio local – "nossa música". Que conveniente, pensei.
 Momento perfeito para pensar se não dá tempo de desistir dessa loucura toda. 

 “É claro que não vou desistir agora. Não, porque afinal de contas, talvez eu não esteja fazendo esta viagem por ele. Talvez seja por nós. Por mim, pelo que senti, por tudo que vivi. Pelas lembranças e, acima de tudo, pelo que aprendi. Existe uma salvação, e eu a quero. Quero viver longos anos ao lado dos amores da minha vida.”

 Balancei a cabeça positivamente, como quem se certifica de ter tomado a decisão certa. De algum modo, era uma viagem inesperada e, até certo ponto, insana. Por que uma pessoa normal sairia do conforto do lar para estar sozinha num lugar praticamente deserto? Por que eu – especialmente eu – faria algo assim? Parecia comigo. E muito. 

Definitivamente, desistir não era mais uma possibilidade. Carreguei o carro e voltei para apagar as luzes e me despedir do Tom, meu cachorro. “Seja o que Deus quiser, eu não vou desistir.” Olhei novamente para todos os itens dentro da minha bolsa – não queria esquecer nenhum detalhe, nada que pudesse me fazer falta, afinal, desta vez, eu estaria sozinha. Entrei no carro devagar, respirando pausadamente.

 O coração, no entanto, não era capaz de conter a tensão – batia acelerado. Era difícil refazer aquele percurso, não se tratava de uma viagem comum, férias do trabalho, nem nada do gênero. Seis horas de estrada até meu destino final - um pequeno chalé numa ilha perto de Angra dos Reis. Quem ousaria uma viagem para o litoral no outono? Eu. Quem faria isso completamente só? Eu, novamente. 

Mas não sem uma boa razão – aquele deveria ser o desfecho de minha jornada pessoal – estar novamente na ilha para onde fui exatamente um ano antes em companhia do homem que transformara minha vida completamente. A princípio, esta primeira viagem deveria ser um reencontro de amigos, alguns dias tranquilos para selar de vez a paz após anos de conflito e silêncio. 

Eu não sabia, no entanto, que minha vida mudaria radicalmente a partir daqueles dias à beira mar. 
 Para entender o motivo do meu retorno à ilha, é preciso saber o que aconteceu quando estivemos lá pela primeira vez. Meu então melhor amigo e eu conversávamos como de costume pelos bate-papos das redes sociais. Havíamos brigado por motivos bobos inúmeras vezes, mas o tempo passou e ficou claro que precisávamos deixar certos fantasmas para trás. Uma nova consciência do bem que fazíamos um pelo outro cresceu e entendemos que era hora de passar novamente algum tempo juntos – como acontecera tantas vezes no passado.

 As ideias loucas sobre viagens sempre partiram dele, e esta não foi diferente.
 - Estive pesquisando alguns lugares, acho que encontrei o que parece ser o ideal para colocarmos todas as nossas pendências em dia.
 - Pendências, Michael? - Sim, temos várias pendências. E vamos resolver todas em nossa próxima viagem... Que deve acontecer... Vejamos... Na semana do seu aniversário, que tal? 
 - Para onde está pensando em me levar desta vez? 
 - Uma ilha. 
 - Uma ilha? Você sabe que em Maio faz frio, certo?
 - E daí? Eu também sei que você não gosta de tomar sol. Ilha e frio combinam bem com você. 
 - O tempo passa e você continua doido. - Sempre doido. Já tenho seus dados na memória, vou fazer a reserva do chalé. E não tem conversa. 
 - Que medo de você, Michael! 
 - Você ainda não viu nada. Vou desconectar. Te ligo para confirmar o dia de nossa partida. Arrume sua mala, minha cretina favorita. Nós vamos passear. 
 - Muito bem! Falamos em breve. 
 Sentia como se tivesse voltado no tempo depois daquela conversa sobre nosso destino. 
Havíamos feito tantas viagens assim no passado, e eu não tinha mais esperança de um dia voltar a viajar com ele. 
Nosso passado de longas e divertidas conversas, as incontáveis madrugadas que havíamos passado rindo de todas as coisas – até as mais insignificantes eram motivo para boas gargalhadas. Ter aquela magia de volta era como receber um presente. 
O melhor presente que se pode desejar. Como combinado, na semana do meu aniversário, parti para encontrá-lo em São Paulo. Iríamos com meu carro até Angra dos Reis, e, de lá, uma lancha nos levaria até a Ilha de Cataguases. 
 Observava atentamente cada um que entrava e saída do Paulista Center Hotel, até que, finalmente, o homem do sorriso mais lindo do mundo passou pela porta. Mochila nas costas, tênis, calça jeans surrada, moletom e uma mala pequena. 

 “Ele não mudou nada... Continua lindo demais!” 

 Ao vê-lo após longos dois anos de distância total, não pude conter a alegria, que rapidamente se transformou em lágrimas. Saí do estacionamento e corri em sua direção. 
 - Não acredito que nos encontramos outra vez! Faz tanto tempo! Que saudade desse sorriso! 
 - Vem cá, menina!
 Nunca soube descrever a sensação que me toma quando abraço alguém que amo. Especialmente naquele momento, seria impossível colocar em palavras a sensação tamanha de euforia que dominava cada parte de mim. Eu era pura felicidade, dos pés à cabeça.
 - Esse perfume! Eu conheço... Espera, não fala o nome... “Amor Amor”, acertei?
 - Em cheio! 
 Ah, ele se lembrava do meu perfume! Era um belo começo.
 - Onde está seu carro?
 - Deixei ali no estacionamento.
 - Então não vamos perder tempo... Temos que comer muita poeira até chegar ao nosso destino de outono.
 - Ainda não acredito que estamos indo pra uma ilha com esse frio... 
 - Relaxa, minha querida... Confie em mim, serão dias inesquecíveis. 
 - Eu não tenho dúvida disso. 
 Colocamos as coisas dele no carro e entreguei-lhe o molho de chaves. 
Eu não fazia ideia de como chegar à Angra dos Reis. Ele teria que ser o motorista da vez.
 - Vamos voar! 
 - Nem pense nisso! Trate de dirigir sem pressa. 
 - Ainda não perdeu o medo da velocidade, mocinha?
 - Nunca perderei. Nem de altura, nem d... 
 - Avião?
 - Jamais!
 Ele riu da forma como enfatizei o medo de voar. Lembranças do passado imediatamente vieram à tona. A chuva não parou, de modo que pude me tranquilizar – não seria possível “voar baixo” como ele tanto gostava de fazer. 
 Falamos sem parar, retomamos as últimas conversas que havíamos tido recentemente pelas redes sociais e assim o dia passou rapidamente e mal notei quando entramos em Angra dos Reis. - Estamos quase lá... 
 - Para onde vamos agora? 
 - Deixar seu carro no estacionamento da agência que loca os chalés na ilha. É perto daqui.
 - Agência... - Não achou que fôssemos de carro pra lá, achou? 
 - Como você é bobo! Eu não achei nada disso! Já estivemos em ilhas antes. 
 - Nenhuma como esta, te garanto. 
 - Ilha Bela, esqueceu? 
 - Não chega nem perto... Estou dizendo. 
 - O que tem de tão especial nessa ilha, afinal? 
 - Nós. E mais ninguém. É isso que ela tem de especial. 
 - Estará deserta mesmo? 
 - Com exceção do caseiro, imagino que sim. A ideia é essa. 
 - Não precisava ser tão deserta... 
 - Não quero distrações por lá. Vamos relaxar, curtir nossos dias juntos, falar abobrinhas, contar histórias tão velhas quanto guaraná de rolha... Tive que rir alto. 
 - Você e esse seu guaraná de rolha. 
Lembro quando ouvi essa expressão pela primeira vez. Ri por horas.
 - E você se acha a mais engraçada. 
 - Quem disse que eu era a mais engraçada foi você, monstrengo. 
 - Que medo dela, meu deus! - Boo! 
 - Você continua não valendo nada, cretina. 
 - Esse apelido é meu. - Meu. Você me deu.
 - Isso faz de você o cretino. 
 - Os dois, então. Cretina! 
 O check-in foi rápido, como imaginei que seria, já que não havia muita gente louca o suficiente para encarar o mar com aquele tempo fechado. Isso sem mencionar o frio que fazia naquela tarde. Embora odiasse a ideia, tentei encarar numa boa a curta viagem de lancha até a ilha. 
Mar, altura e velocidade não foram feitos para mim. Ignorei até onde pude, mas tive que gritar quando pareceu que a lancha ia virar. 
Os pingos gelados da garoa se misturavam aos do mar, causando uma sensação de frio ainda maior. O velhinho que nos levava apontou para a ilha, indicando que estávamos – até que enfim – chegando ao nosso destino. 
 - Precisava mesmo ser tão longe? 
 - Você tem quantos anos, mesmo? Setenta?
 - Vou ignorar este comentário. Odeio barcos.
 - Isso é uma lancha. Barco é outra coisa. 
 - É tudo a mesma coisa. Balança, não é seguro. 
 - Você está usando colete, velhota. Não vai morrer, não! Calma... 
 Enquanto Michael ria até perder o fôlego, eu segurava para não chorar de tanto medo. Felizmente, o simpático caseiro não demorou a encostar a lancha no píer. 
Ainda sentia medo, era fundo demais para mim naquele ponto, e a sensação de que meu corpo se lançaria ao mar involuntariamente não estava sendo de grande ajuda. Michael subiu ao píer antes de mim, e em seguida estendeu o braço para apoiar minha subida. 
Quase voei para a areia logo que pude tocar os pés na madeira envelhecida do pequeno píer. Mais risadas. 
 - Calma, minha filha! Preciso de ajuda com as malas, volta aqui! 
 - Não volto nem morta. Traga as malas até aqui que eu carrego.
 - Você é impossível! 
 O caseiro se juntou a Michael nas gargalhadas. Que ótimo. Agora eram dois idiotas rindo de uma situação tão delicada!
 - Você não tem medo de nada por acaso? 
 - Tenho medo de muita coisa, mas certamente não de um píer indefeso. 
 - Não vai parar de rir, mesmo? 
 - Parei, juro. 
 Não, ele não parou. Mal virei de costas e já pude ouvir o som estridente de sua gargalhada ensandecida. 
 - Tudo bem, pode rir. Não ligo. Vou descobri um medo seu qualquer dia desses e vou fazer você pagar por esse vexame todo que está me fazendo passar na frente do caseiro.
 - Vai, nada. Até descobrir um medo meu, eu já terei morrido de tanto rir de você. 
 - Palhaço. 
 - Bobona. 
 - E essa chuva, não para nunca? 
 - Não vamos acampar, mocinha. Que diferença faz se a chuva não parar? 
 - Vai ficar enclausurado no chalé, por acaso? 
 - Por mim, não há problemas. 
 Parei para ver sua expressão. Ele parecia falar sério, e aquilo era novo para mim. Não seria nossa primeira viagem juntos, nem a primeira vez que dividiríamos o mesmo espaço, mas, por alguma razão, aquela resposta soara diferente. 

 “Não começa com pensamentos idiotas, pelo amor de Deus...”

 - Acho que chegamos. 
 - Qual deles?
 - Estamos no número três. É aquele ali.
 Michael apontou para a direita. Caminhei até a entrada do simpático chalé de madeira. Parecia com os que eu costumava frequentar com os amigos em São Pedro, exceto pelo ar mais requintado. 
 O caseiro veio conosco até a porta de entrada do chalé e nos deu as boas-vindas à ilha. 
 - Aqui estão as malas. Se precisarem de mim, estarei na casinha ali da frente. É só chamar pelo Toninho. 
 Apesar de pequeno, o chalé tinha tudo que poderíamos precisar e parecia bastante limpo. 
A única cama de casal estava bem feita, com lençóis brancos e muitos travesseiros. 
Havia uma mesa redonda bem ao centro, uma pia pequena, armarinhos com panelas, pratos, taças, xícaras e copos. A geladeira já estava abastecida com comida fresca. 
 Um pequeno banheiro do lado esquerdo da cama, também extremamente limpo. 
Fiquei um pouco surpresa com os detalhes daquela casinha de madeira – lembrei-me de quando me mudei da casa dos meus pais para um apartamento no centro de Campinas. 
O chalé era infinitamente melhor estruturado. 
 - E essa única cama aqui? 
 - Algum problema em dividir a cama com um velho amigo? 
 - Se for apenas para “dividir” a cama, não.
 - Tem um monte de travesseiro aí, se sentir medo de mim à noite, é só fazer uma barricada e estará protegida.
 - Tenta de novo.
 - Tentar o quê? 
 - Outra piada. Essa não teve graça. 
 - Senso de humor de gente com alma idosa é um problema, mesmo. 
 - Essa também não foi boa. 
 - Estou brincando, mocinha. A ideia é relaxar. Vamos manter uma margem de segurança, não se preocupe. Não vou te agarrar enquanto dorme.
 Esse era o nosso normal. 
Um fazendo piada com o outro, sem medo de arriscar uma frase que pudesse soar grosseira. 
Nossos melhores momentos enquanto amigos foram sempre regados a muito humor ácido e pouco pudor. 
 Nesse clima amistoso, arrumamos nossas coisas e preparamos um lanche para o fim da primeira tarde na ilha. Os dois primeiros dias foram de chuva, então não havia muito a se fazer. 
Pusemos todos os assuntos em dia, e ainda assim, os assuntos brotavam e pareciam longe do fim. 
 Numa noite mais tranquila e sem chuva, decidimos tentar acender uma fogueira na areia com gravetos secos providencialmente encontrados dentro do armarinho debaixo da pia. 
Pareciam ter sido deixados lá para uma ocasião como aquela. 
Estendemos um lençol sobre a areia e preparamos uma espécie de piquenique ao luar. Bebíamos um vinho branco que ele havia comprado no sul do país e mordiscávamos cubinhos de queijo, sempre ao som das nossas bandas favoritas – o clima estava muito agradável, a atmosfera parecia contribuir de todas as formas para que nos sentíssemos muito à vontade. 
No meio das conversas acerca de todos os assuntos possíveis, terminamos justamente naquele que eu teria evitado enquanto pudesse – meus sentimentos por ele. 
Não mencionei ainda, mas tínhamos apelidos – apelidos especialmente criados por nós e para nosso uso privado: ele me chamava de Boo (porque eu era “assustadoramente engraçada”) e eu o apelidei carinhosamente de Monster (porque ele era meu monstro favorito). 
Foi fácil deixar nossos nomes de lado para nos tratar pelos apelidos, como fazíamos anos atrás. 
- Vamos lá, Boo... Não tem motivo para limitar as verdades... Acho que já passamos dessa fase. 
- É redundante, você sabe o que acontece comigo melhor que eu mesma! 
- Eu sei o que vejo, não faço ideia do que se passa aí dentro... Ele apontou para meu coração, e depois, para minha cabeça. 
- Sabe, sim, Monster. Sempre soube. 
- Você nunca me disse uma palavra, gostaria de ouvir o que acha que eu sei – mas ouvir de você. Não da sua melhor amiga, nem ler em seus textos. Quero ouvir de você! 
- Meu Deus! 
Virei a taça de vinho e tentei me levantar, mas fui segurada por ele antes que pudesse sair do lugar. 
- Olhando nos meus olhos, Boo. Por favor, fala. 
- Eu não me lembro de termos acordado nada que envolvesse uma confissão forçada, Monster! E por favor, pare de me encarar! Odeio quando faz isso. 
- Odeia? 
- Muito. 
E continuávamos mirando um ao outro. 
- Conta o que acontece com você e eu paro de encarar esses olhos enormes e lindos. 
- Está flertando comigo, Monster? 
- Você saberia se isso fosse um flerte. 
- Vindo de você, eu nunca sei de nada. Essa é a parte ruim da coisa toda: não sei o que esperar de você. Estou surpresa com essa sua pressão. Achei que não queria mais tocar nesse assunto. 
- Mudei de ideia. Agora eu quero. 
E não deu tempo de responder, porque ele me puxou para mais perto e calou minha boca com um beijo que me fez perder a noção de minha própria existência. Estávamos levemente embriagados, mas eu sabia que meu estado de consciência ainda estava intacto, então julguei que o dele também estivesse. Muita informação, de qualquer forma. Eu só consegui abrir os olhos alguns segundos depois que ele parou o beijo. 
 - Eu não lembrava mais como era, sabia que tinha gostado do seu beijo, mas não lembrava mais. Você manda bem, Boo. - Você é a pessoa mais idiota que eu já conheci. Definitivamente. 
- Desencana, por favor, ok? Estamos aqui, a noite está linda, tem uma lua imensa no céu, que tal apenas aproveitarmos tudo que temos hoje e esquecer do resto? Me conta seus segredos, Boo. 
Eu não vou sair de perto, não vou correr de você, quero que seja honesta comigo pelo menos uma vez. Já te pedi antes para ser franca quanto ao que sentia, e você preferiu sair de cena. 
Agora nem eu, nem você temos pra onde ir. Somos só nós aqui. 
- Você sabe de tudo. 
- Boo! 
- Monster, eu não consigo controlar minhas pernas agora. Eu não consigo falar direito porque parece que meu coração está escapando de mim. Não posso nem gritar porque minha voz está sumindo. Minhas mãos tremem, minhas bochechas estão queimando. 
Pronto! Desenhei com sol e nuvens. Está claro agora? 
- Não, não está! 
- Seu idiota, sai da minha frente!
 Empurrei seu corpo com as mãos fechadas e, num esforço visível, controlei minhas pernas a ponto de conseguir me movimentar sem tropeçar. 
E novamente, fui puxada por ele. Já sentia as lágrimas caindo, e se virasse o rosto, ele veria. 
Quando finalmente conseguiu me virar para sua direção, cobri o rosto com as mãos, e ele as puxou com força suficiente para conseguir me ver. 
Michael

- Você tem vergonha do que sente por mim? 
- É uma vergonha não ter o que fazer com isso. Não tenho vergonha do que sinto, apenas não há utilidade para esse sentimento. 
- Olha pra mim, Boo... Ergui os olhos molhados e não tentei mais impedir as lágrimas. 
- O que você quer? O que quer, Monster? 
- Quero ter um fim de semana perfeito com você, quero que tenhamos as melhores lembranças desses dias. As melhores, Boo. Sem reservas. Quero te conhecer, quero que me conheça. Quero ficar aqui com você até o último segundo do último momento. Só que não temos muito tempo, então eu gostaria que fôssemos honestos, que nos deixássemos levar, e que a natureza se encarregue do resto. Não somos mais crianças, eu sei o que quero agora, sei do que preciso. Por favor, Boo, esquece o mundo, esquece o medo, a dúvida. Pensa que agora estamos aqui – estamos juntos e não há nada entre nós. Não há passado, só existe o agora. O presente – nosso presente.
 - E depois? 
- Não tem depois, Boo. Só temos o agora. E eu preciso de você agora. Entendeu? A-go-ra!
 - O que quer dizer com isso, Monster? Do que está falando, exatamente?


(continua)...